mardi 23 juin 2015

Giros: Roda gigante em Bicicleta


24 de junho
                                     Giros: Roda gigante em Bicicleta
                                    Sorvete
                    Sossego
                                             Catavento
        Afago                      Afeto
                                                       Amar elo
bombom
                                        botão
Azul:
adj.1. Da cor do céu sem nuvens com o Sol alto, da cor da safira. sm. 2. A cor azul em todas as suas gradações. 3. O céu.
                                                  Buzina
             Bússola
  Afeição                                                       Afã
                 Delicadeza
                                                 Bombom
      caleidoscópio           idiossincrasia
                                                     Livro dos Abraços
 Chuva                          vento
                    Bicicleta
                
                                                          chocolate
presente
                           amizade
                                            
         saudade
                                               Faz as pazes comigo?
Estrela cadente
                                     Estrela-do-mar
                                                     plim!
                                                            plim!
         Cueca
 Chocolate                                 Bicicleta
                          Balão                               Carrossel
Cosquinha                   mordida
           árvores floridas                          enternecer
                                   Estrelas
                                           Ser
                                         Você ainda quer me ver?
Beterraba                        meteoro 
                                               escafandrista
 Tigre (sem listra)
                            Cálido                 éter
         guarda-chuva
       
    Entrelaçar             Balão
                                            Blim-blem-blom
                                    Coração
                Ninho
                                           Ainda quer ser meu amigo?
Flauta
              abraço
                             intergaláctico                   Afeto
Pudim
                 barco de papel
                                                   meleca
        Pluto
Lambida                                                         mágico
                            magma
Libélula
          Boboca                            Cosquinha
                                                            constelação
balão
                   vulcão                   cotovelo
        novelo                                                   lua
pracinha                        cosquinha
                                             A menina que roubava livros
Peter Pan
          Terra do Nunca                                   Lilás                                               
                                segredo
           arrepio   
                                       Você ainda não vai falar comigo?




De princesa Meretseguer

23 de junho

23 de junho

Há um tigre sem listras a me espreitar, seus bigodes escrevem sonhos que não quero sonhar, passeiam pelo meu corpo devagar, como se soubessem que fujo de algum lugar, há um tigre sem listras a me espreitar e suas garras prendem meu pensar, às vezes, me rasgam, às vezes, arrepiam, depende da doçura ou do súbito desvario, há um tigre que uiva em minhas cordas um nome que não posso lembrar, mas ele me rodeia, um eco em festa por conseguir outra vez com o vento soprar, há um tigre sentado em meu coração e dorme mansamente como se não soubesse que pesa e desconcerta meus vermelhos, há um tigre sem listras que ronda meu corpo, há um tigre sem listras que ronda minha mente, há um tigre sem listras que repete teu nome, há um tigre sentado em meu coração, há um tigre que me arranha, sopra e morde, esse tigre que, aos poucos, em seu rondo silencioso para os outros anuncia a minha morte. Há um tigre que me toma em seus pelos e me ergue sem jeito para que eu possa ventar, selvagem, há um tigre que me deita no escuro, há um tigre que me deita no escuro sem que eu precise meus olhos fechar, há um tigre que me diz que as cores guardam segredos, há um tigre deitado em meu coração e dorme mansamente sem perceber que pesa e desconcerta meus vermelhos...

Um segredo guardado pelo Amarelo

Um segredo guardo pelo Amarelo:
Alegria é uma palavra que faz cosquinha.

mercredi 27 mai 2015

Teus olhos

Teus olhos...



O segredo do Azul



Era uma vez uma praia comprida de talvez e de azuis que, às vezes, nos molhavam. Era noite e meu pai seguia obstinado por esse caminho de vento e areia, dizia que o mar algo lhe dizia. Eu mesma nada ouvia, mas os seguia. Meu pai e o mar  pareciam caminhar em uma certeza, enquanto eu ia pendurada de dúvidas. E se a fúria do mar nos levasse para dentro de suas vontades?  E se as moiras nos fiassem em suas tramas com os fios de areia daquela praia? E se fôssemos o sonho de uma outra pessoa?  Mas meu pai seguia, seguia, seguia apaixonado pelos caminhos ditados pelo azul, até que surgiram quatro pequenas pegadas na areia. Estatuei de medo, as pegadas estatuaram também. "Pai, estamos sendo seguidos!", cochichei  para seus olhos. E, do invisível,  risos surgiram. "Deve ser outra conversa do mar", riu  meu pai também, não me levando a sério e prosseguimos seguidos pelas  risadas e as estranhas pegadas sem corpo que, aos poucos, para nos tirar do sufoco, se revelaram em quatro crianças, desenhadas pelos fios de Vento. Elas iam para onde íamos, catavando conchas na areia, se converlando em  tatuís, marias-farinhas ou pulgas e, às vezes, se balançando penduradas nos braços do meu pai. Assim, elas nos seguiram, enfeitando nosso noturno destino até a primeira curva da praia. Ali, eu sabia: haveria a travessia. Estatuei e olhei para trás, as quatro crianças estatuaram de também, enquanto meu pai fixava o olhar nos pássaros que migravam no horizonte. Ergui meus braços e fiz um gesto com as mãos, elas tentaram imitar, acharam graça; mas eu estava séria e certa do que faria. Proferi o segredo e soprei. A magia misturou o vento, a noite e a areia... e as quatro crianças, uma ao lado da outra, deitaram na praia, imóveis entre as nossas pegadas, os olhos abertos para o teto do mundo que se descascava. Mais uma vez, ergui as mãos, o mesmo gesto e sopro que misturava o vento, a noite e a areia... e as quatro crianças, uma ao lado da outra, adormeceram no pra sempre. Havia um silêncio a pulsar entre nós e o mundo. Atordoados, seguimos não mais tão certos como no início. O mar também se calou. Uma montanha brotou no caminho a contornar o final da praia, como  um alto muro. As ondas  mais selvagens batiam nas pedras... e eu as queria! Queria ser selvagem como aquelas ondas! Senti-las entre minhas pernas, meus cabelos! Mas não podia ser errante com aquele mar e  escolher o abandono das pessoas que amo.  Apertei forte minhas mãos às mãos do meu pai e o puxei a escalar a montanha. Ao alto,ainda era noite, quando encontramos uma rocha oca e a cavamos, material que facilmente se rompia. Parecia coisa feita de  borracha ou isopor de musgo, justo rocha que era coisa feita para ser bruta. Arrancamos  alguns pedaços, levados pelos pássaros antes de caírem ao mar. Uma luz surgiu para o outro lado. "Uma passagem!", gritei. A passagem me espiou enquanto eu a espiava. Ela via meus olhos lilases e meus fios cacheados ruivos refletindo suas estantes cheias de livros antigos. "Uma livraria dentro da terra!", outro grito. Eu era toda livraria. "Chegamos onde eu queria!", meu pai disse e me empurrou para dentro da passagem, junto com ele. Naquele momento, não sei porque, achei que vi Alice, o Gato e a Rainha de Copas voando com a gente dentro do buraco para dentro da biblioteca. Caímos do rombo no teto, derrubando as prateleiras e várias histórias para fora dos livros. "É, somos um pouco pesados, eu acho.", pensei. Por um instante, achei que o caminho da biblioteca ficava na queda dentro de uma história, dentro de um livro. E ri sozinha, meu pai também riu. "Seria do mesmo motivo?". Chacoalhei  as ideias como se fosse nuvem que se desfaz. Pela primeira vez, notei o atendente da biblioteca em pé na nossa frente com uma seriedade pendurada no rosto. Olhei ao redor, meu pai ao meu lado, o buraco no teto e a gente sentado  no meio da bagunça. Subitamente, nos colocamos de pé, sacudimos o mar, o vento e o musgo do nosso corpo e oferecemos um sorriso meio torto para o mau humor do sério senhor ... Foi quando algo se quebrou para o bem naquele estranho espaço. De repente, aqueles fiapos sacudidos de mar, vento e musgo sopraram incessantemente naquele local, recontando uma bizarra melodia que engoliu seu abandono. Uns fios de sol invadiram o rasgo do teto da biblioteca, a enternecendo de amarelo. "O feitiço se desfez!", disse o atendente que, finalmente, sorriu. " Há milênios esta biblioteca foi escondida dentro de um livro dentro da rocha desta praia, encantada por  um cego rei. Eu fui trancado aqui, dentro do seu abandono, por ter lutado contra o feitiço do tirano. Apenas o mar sabia deste segredo. Não esperava mais que alguém pudesse seguir os caminhos ditados pelo azul e destecer nosso destino noturno, até hoje...", disse o senhor chorando.  Do rasgo no teto, janelas se abriram; da parede, portas surgiram; dentro dos livros, as quatro crianças riram; ao redor, pontes entre a biblioteca e a memória das pessoas emergiram. Agora, no meio do mundo, a biblioteca pulsa e as palavras ainda sonham como sempre.


(Palavras e iluminura: Juliana Gelmini -  sonho do dia 26 de maio de 2015)

jeudi 7 mai 2015

olhos de ressaca

Frustração é tipo ressaca
da Ilusão
- meio vinho,
meio sino que
enforca
nó(s)
da Vontade.

vendredi 1 mai 2015

Um encontro...

Ontem, na Escola de Belas Artes da UFRJ!

Esse barquinho de papel amarelo me comoveu.




"Todo abismo é navegável a barquinhos de papel."
(Guimarães Rosa) 

mercredi 22 avril 2015

Metal contra as nuvens


I
Isla abriu seus olhos tão rápido em piscar, esvoaçando vaga-lumes. Eles brilhavam como se guardassem um segredo e espalhados pelo ar, os vaga-lumes, a guiaram até o Porto das asas que ficava justamente no ali do quintal da sua casa, perto do poço. Lume, o vaga-lume mais amarelo, deu dois rodopios e  declarou "Isla, é esse o plano! Rápido, já é quase meio dia! O sol,  ao olhar seu reflexo na água, ficará distraído pensando se ele é mesmo aquilo e  nem notará que você se aproxima..."- os vaga-lumes riram,riram, riram, mas de desespero e também porque  Distraído é uma palavra que faz cócegas no umbigo.  Lume continuou "Como dizia, ninguém notará seu pulo!"- E apontou para umas nuvens meio baixas - "...naquela direção, rumo à terceira margem do rio!". Isla olhou para trás, viu sua família ao longe, avó, pai, mãe ainda ajeitavam a mesa para o almoço, mas queria saltar para esse não-lugar "Quem sabe lá  despintam de mim tal tinta invisível?". E o sol empurrado pelo Tempo pousou meio-dia. Ela gritou "Quando quiserem me achar, basta seguir a direção dos lumes, em meio as movediças nuvens!". Isla fechou os olhos, abriu os braços - em seu pensamento, eram asas - e  pulou! Gelado nas pontas dos fios,  o vento dançava cada vez mais rápido, "Seria a Morte?", ela pensou. Ao invés do céu, o corpo afundava para o chão.... mas no meio da queda, ela  brincou, "Faz de conta que pássaro sou!" e assim pássaro se tornou.  Isla ainda ia, mas agora em asas  abertas do possível, ao encontro do seu céu, metal contra as nuvens....

 II
Isla pousou na entrada da rodoviária enuvesada, espiou e piou  "Quanta quinquilharia! Quanta velharia! Quanta quantaria! E nuvem não é lugar para o sonho?". Era um comprido corredor, bem espremido e entulhado de abandonos. Além de Isla, outras crianças havia, pássaros de tinta invisível, a espera de outro lugar, ali é travessia. Neste enquanto,  um menino começou a puxar livros em meio as nuvens, alguns  Isla sabia de cor, coração que pulsa! Vários livros tirados entre o branco, eram tantos que tudo foi rodando...os borrões fortes dos livros pintaram água no coração de Isla, outro tango fora da hora. Isla correu, sem saber dizer para onde, entre as crianças invisíveis, até tudo ser tinta, o escuro apenas. O Tempo - trocando seu eterno corpo de água a cada instante - encantou Isla até o quando enfeitado do sino que soasse dentro dos seus sonhos. Blimblemblom! Blimblemblom! Blimbleblom!

III
Ainda deitada no chão, Isla abriu bem os olhos daquela maneira que fazemos para saber se estamos vivos,  "Aonde é o onde?", disse. Estava numa paisagem borrada, parecia  mais jardim de Monet... se o jardim fosse floresta, se a floresta fosse chão batido e se chão batido fosse um marrom que não existe.... Sacudiu o olhar, levantou depressa. Mas o que era aquilo? Árvores de tecidos! O silêncio soprava entre suas folhas de panos compridos, finos, coloridos e altosaltos de história sem fim. Isla correu, deslumbrada, queria  sentir os tecidos, a terra entre os dedos,  o vento... aberta de vida, queria sentir! Se jogou embaixo da árvore mais azul e chorou de forma compulsiva. A árvore azul  trançou seus tecidos compridos em um balanço para a menina. Entre giros rápidos se  moviam, enquanto a árvore chovia, chovia, chovia, apenas para Isla. "É este o nosso segredo", disse entrelaçando as raízes, "A mágica, Isla, ainda existe!"



(Sonho do dia 22/04/15)



lundi 20 avril 2015

Clavesdemar e libélulas



Trombones  sussurram   clavesdemar e libélulas

Meio-dia


uma estrela cadente dança tango,
meio-dia, em pleno engarrafamento,
por dentro, outro amor violento menta...

Aquilo que não digo



Há anos não te vejo, eu só sabia ser meio-dia, latente e você não compreendia. Hoje, pendurei silêncio em meus cílios, ele brilhou como quem anuncia amor no mundo... Presta atenção no que eu não digo, já dizia uma escritora que me faz sonhar... Hoje, saí de branco pelas ruas e trazia uma flor, mas quem notou meu protesto silencioso? Havia tanto afeto em meus olhos e as memórias nossas, um cara tentou levá-las, você acredita? Entreguei outra parte de mim, uma que a mutilação não fosse tão triste, apesar de inevitável. Mas eu não vim para te contar isso...
Faltam alguns dias para o carnaval e a solidão diz que devo buscar uma rota, uma carta, um sino que soe dentro dos meus sonhos, foi assim que você ressurgiu... Hoje, achei o céu tão bonito, brotou tanta paz dentro de mim e eu só queria te dizer...





mercredi 18 mars 2015

Roda gigante

(Confissões, diário 2014)
Fechei os olhos e, de repente, uma vontade de ser tartaruga surgiu. No meio do meu mar, o sol do meio-dia, mas tão pouco brilha ou é amarelo. Meu sol anil parece mais com tartaruga. Quando o amor baterá à porta? Dançará com meus olhos por cores que nunca ouvi? Quando não será equívoco? O tempo e seu eterno corpo de água trocando de sons a cada instante. Piso em folhas secas, afundo minhas mãos em estalos, como sou apaixonada pelos sons secretos do mundo! Diante da roda gigante, giro e tombo. Quando abro os olhos e o céu entorpece os sentidos, parada fico, a roda gigante girando vazia, a luz parada de azul, o parque abandonado em minha solidão. Busco teu coração, roda gigante!Comboio de cordas, como me ensinou Pessoa, como também sou! Ruídos teus rabiscam novos riscos meus... com o silêncio, choro, reinvento o choro sem lágrimas, da linguagem seca que  os selvagens pássaros compreendem. Sinto o mundo! O vento que leva meus fios, me desfazendo! Como venta aqui, dentro: roda gigante! Por que não posso desgrudar meus olhos do céu? Meus cílios carregam seus anis a iluminar o que vejo... mas a tua solidão, roda gigante, continua seca e não descobrem que no mundo há tais giros, tais flores, tais anis.... Deitada no chão do parque, emudecida de anil, sem esperas sinto: roda gigante sou!





vendredi 13 mars 2015




Ainda batem as janelas... o vento não cessou nessa madrugada, de soslaio observo Sr. Heathcliff no antigo quarto de Sra.Catherine, no Morro dos Ventos Uivantes, seus olhos abertos de espera. Ele sabe da minha presença, pois desde a morte de sua amada, em seu pedido passional de que o atormentasse para tê-la por perto de alguma forma, também decidi fazer-lhe companhia..."Heathcliff, eu não tenho medo de você" sussurrei em seu ouvido e soprei a vê-la acesa em cima de um antigo diário. "Catherine? Catherine? É você?", ele disse. Eu nada respondi, como habituam fazer alguns fantasmas. Olhá-lo nessa noite que antecede sua morte me confunde, aquele canalha não merecia que eu por aqui estivesse, mas ele sabe meu segredo... e queria roubá-lo de seus olhos, daqueles olhos negros e profundos que também me lembram um antigo sino. Às vezes, ainda bate em meus sonhos e ilumina o quarto com um singela troca de rostos...  Sr. Heathcliff embaça e em seu corpo uma antiga memória surge na sombra desse obscuro homem, a beira da morte. A razão não saberia explicar porque nunca consegui abandonar em meus pensamentos um brilho que senti  por olhos igualmente profundos como daquele "cigano" ... olhos que por mais que eu olhe, sempre haverá véus a desvendar...Por que não os  esqueci? Por que os sinos ainda dobram por ti?




"(...)
E eu faço uma única oração e repito-a até ficar com cãibra na língua- Catherine Earnshaw, você não há de descansar enquanto eu viver! Você disse que eu a matei - assombre-me, então! As vítimas de fato assombram seus assassinos. Eu acredito - eu sei que os fantasmas caminham sobre a terra. Esteja sempre comigo - assuma a forma que quiser - enlouqueça-me! Ah, meu Deus! Faltam-me palavras! Eu não posso viver sem a minha vida! Não posso viver sem a minha alma!"
Então bateu a cabeça contra o tronco retorcido; e, erguendo os olhos, uivou, não como um homem, mas como uma fera selvagem sendo apunhalada até a morte com facas e lanças."

(BRONTE, Emily, O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), Editora L&PM, Tradução Guilherme da Silva Braga, 2011, pág. 194)

dimanche 28 décembre 2014

Domingo

Ajeitei meu cabelo com um pincel, o maior que tenho, lembro de quanto tempo não pinto com ele, ao lado direito do meu olhar, duas caixas de aquarelas, algumas bisnagas de tintas já moídas de tanto que usei, sim, o tempo em seus corpos metálicos, são meus dedos que as apertaram, acho bonito os objetos que se doam as nossas mãos, de forma que possamos tocá-los, eles não sentem medo de como ficarão,  apenas se entregam. Agora com um pincel entre meus cabelos,presos, alguns fios se arriscam entre o vento que não cessa, nada se move em volta, apenas por dentro. Aquela música incessante voltou, ela me conta da minha verdade, nem sempre a minha verdade pode existir junto com o que esperam de mim, não, sou muito menor que isso, e queria mesmo poder alcançar os pássaros dos olhos da minha amiga, pois é exatamente assim que ela me vê, um pássaro, acredita? Disse pra ela que nunca fui, ela teimou que eu era e que agora estava diferente, mas não, era o olhar do amor. Você já reparou como o olhar do amor mergulha o que existe em magia? Eu virei pássaro aos olhos da minha amiga, e agora sou acusada de não saber mais o antigo voo...  Eu quis vir aqui para me desabotoar, reparou que tinha muito tempo que não escrevia? Andei sendo feliz por esses dias, me enfeitei de libélulas, me enfeitei de palavra que sonha e alguns espirros que não me deixam. Se você acha que alguém não pode se enfeitar de espirro é que ainda não entendeu a linguagem secreta do vírus, ninguém ainda conseguiu traduzir em todo seu estado de completude a palavra atchin, eles me contaram, digo, o vírus que me habitou esse ano todo me contou, mas eu disse que manteria segredo, se a porta não abrisse nesse exato momento "Você tá bem?". Meu nariz coça, qual seria essa comunicação? acho mais fácil traduzir sinal de fumaça, nem sempre eu entendo o vírus, então, vou desistir, porque desistir também tem suas belezas. E deixo a água invadir o quarto, não é belo? Essa água que agora nos cobre até os joelhos,borra as letras dos meus livros, os nunca lidos, mistura as cores dos lençóis, embola minhas angustias, deixa a água invadir, até que todas as libélulas presas se sintam inquietas e se livrem de mim. Eu gosto muito de escrever, sabia? Aqui, sinto que sou realmente livre! Se eu quiser ser pedra, eu simplesmente posso ser e ficar no estado de pedra encantada até o tempo me acordar em outra criatura, gosto de visitar esse lugar, espiar as palavras, chamá-las para morar comigo, dentro de uma pequena história, fio de mim que nunca ouvi e vou deixando fiar assim sem pensar direito... quem sabe minha amiga não tinha razão: e se eu realmente tiver sido um pássaro que esqueci?
Tudo muda....

jeudi 25 décembre 2014

o sonho

Era uma ponte, comprida e bamba,
Diante dela, um gigante.
O passo adiante, a ponte balança,
mas o gigante corre, a madeira abre,
o gigante segue, olha pra baixo,
o abismo salta pra dentro dos olhos,
pra dentro do estômago, pra dentro das horas,
mas a vontade soca o medo,
o gigante segue, em sua ponte torta até o outro lado da história....

lundi 8 décembre 2014

Minha vizinha ou Via láctea contada por uma flor


Há uma rosa que se lança com seus vermelhos para minha casa, como se fosse mesmo um amor a nos olhar. Penso que é sempre bom ser amor como aquela rosa é, e é isso que ela me ensina todos os dias. Ela gosta de ultrapassar as grades, se erguer para além daquelas fronteiras e se suspende, brincando de vento, para me olhar. Eu e ela nos enamoramos, e vim escrever essa cartinha para ela antes de voltar a namorá-la de silêncio da minha janela. Acho que é um amor de irmã, sinto que a sua existência continua dentro de mim, seu vermelho me invade e me pinta também, de amor, de amor, de amor.
Eu entendo a sua loucura de querer se lançar para além do jardim, ela quer sentir! Pois posso entender seu pensamento no pensamento, a esperar a lua, pupila da madrugada. Pois essa rosa também é astróloga, na minha solidão, dei para contar-lhe todas as minhas investigações sobrenaturais da influência dos astros. E, ontem, quando o mundo desabou dentro do meu quarto (ainda está tudo bagunçado, com pedregulhos e meteoros que pulo para poder aqui entrar e escrever no computador) - imagine ao olhar para o lado vejo metade da minha casa desabada, mas a rosa também vejo, no lá que tanto parece perto, parece lado de dentro, sinto seu cheiro. É doce, mas sem enjoar, com quem anuncia afeto no mundo.
Mas quando em minha solidão lhe contei os mistérios do universo, essa rosa desaprendeu sobre signos astrológicos comigo. E ontem, como dizia, com o mundo se abracalando dentro do meu quarto (apenas), ela observava do outro lado da janela a invasão de cometas, bombas d'águas, flores silvestres a desabar em cima da minha cabeça, e eu aceitava... chorando doída. O gosto intenso da vida às vezes nos rasga? E me abandonei.
À noite, quando a cabeça dormia mas as ideias não, ela veio e disse que sabia o motivo daquele tormento celeste, eu fiquei em silêncio, disse que a lua dessa noite estava em câncer, eu sorri, ela disse também que a lua é a pupila da Madrugada e que ia pedir para essa noiva louca do escuro fechar seus olhos só por ontem.... para que eu também pudesse esquecer. E assim, dormi. Hoje, a rosa de vermelho me ofereceu um silêncio no qual morei (ou morri?) o dia inteiro, não sabia o quanto seria belo se vestir do silêncio de uma rosa, me orvalhou. Ela contou das árvores...  ensinou  que os troncos das árvores mais fortes precisam de espaço para respirar, sem esse silêncio os dois morrem, por mais que desponte a saudade de ser céu.