mardi 31 mai 2016

Bolinho de chuva

Bolinho de chuva
de chuvisco,
de brisa,
um dia, quem diria?
na primeira mordida,
uma nuvem escondida,
pulou um pouco perdida
pela janela inventada
como quadro pendurada
do lado de fora da entrada

Bolinho de chuva
em choro, trovoada
[um pouco torrada]
seu sonho é ser curva
da razão meio avoada
ou bolinho de neblina
assada e divina
um dia, quem diria?
na segunda mordida,
a nuvem começou a funcionar
feito máquina de escrever antiga:
tac-tac-tac-tac-tá
as correntes de ar
[con]versavam sem parar
na linguagem dos ruídos

Bolinho chuvoso,
pela terceira vez, te mordo
gosto de nuvem a funcionar
estranho tac-tac-tac-tac-tá
a respingar gotas de faíscas
da feitura da chuva frita
quando um curto circuito e tanto,
de súbito e de afeto, risca
a palavra relâmpago em branco
no céu da boca que chovia,
uma memória azul brilha.













lundi 30 mai 2016

Descobri o título da nossa história.

Romântica

Essa tinta que fica e arde, pigmento permanente,
Feita da urina das vacas alimentadas das folhas de mangueiras
Feita das múmias egípcias embalsamadas com asfalto
Feita do resultado da luta entre um dragão e um elefante
[E que tem até relato no livro História  Natural de Plínio]
Feita de um pigmento sintetizado em laboratório cardíaco
Feita por um pequeno inseto que produz um vermelho carmim fugidio
Feita por pedra preciosa moída intensamente e purificada em processo complexo
[página 27 da Oficina de Pintura da Lourdes, conhece?]
Feita de naturezas líquidas diversas aos tecidos vegetais e animais
Feita em Alquimia nas cavernas antigas com pinturas rupestres
Feita dos polvos escondidos em corais das regiões abissais

Essa tinta nossa, meu amor, mesmo com carga cheia, não escreve mais.









Porta-retrato


As horas organizadas em casas
as casas organizadas em portas
as portas organizadas em números
os números organizando os seres
identidade, cpf, celular, por favor
os seres sem serem na fila do cinema 
o cinema com pipoqueira vermelha
descascada como se fosse verdadeira
náusea a vista ou em cinco parcelas?
No porta-retrato, essa imagem
história de três andares  sem ninguém:
tarde de domingo, à noite era sempre
nas casas com suas luzes bem acesas 
de contas de luz



jeudi 26 mai 2016

Amor degradê

Meu corpo, teu suporte
suporta como tela forte
o corte do desejo teu
sem norte
a me experienciar em breu
a primeira velatura se leu
pincelada aguada em véu
Em meu olhos, branco [quase] céu
Venda clara a riscar teu croqui
[Quem é você?]
[O que faz aqui?]

Outra pincelada a seguir meu rosto
teu rosa neve a [me] abrir camadas leves
[Você é meu sonho!], grave voz escreve,
na boca, a tinta breve, estranho gosto,
O desejo tece teu nome em minha pele.

Em véus, teu pincel meu desejo arranca
e inteira intensa vermelha me lança
Dripping com minhas cordas carmin
[Meu nome em tua pele!],o querer quer
de mim e desafia a canivete tua nuca,
o medo arranha, esfria o lustre azul nunca.
Nos lençóis, um tom preto o peito borra,
o teto desaba um pouco, a casa entorta,
teu véu [quase] céu em verniz pesa,
teu rosto some, o rosa neve sangra
teu nome ainda em minha tela seca,
meu vermelho craquela.

Não sei ser degradê.



mercredi 25 mai 2016

Biografia do outono - segunda memória


Segunda memória





Aula de aquarela
Profa Lourdes Barreto

aguada degradê - cor quente e fria - vermelho e violeta
com criação livre
25/05/16

lundi 23 mai 2016

Biografia do Outono - primeira memória

Biografia do Outono

Primeira memória

O tempo mudou, teu poema estremeceu o meu pensar, meus pelos deitaram sobre tuas palavras a experienciar direções fora da caixa, a torneira aberta me entornava quase toda, a torneira aberta sem cessar a me livrar do corte cego, do corte exato, do corte em seta para algum lugar. Teu poema foi girando em meu calcanhar, laranja em gomos, eu diria, minha nova forma de andar. Fui descascada a mão por teu olhar. Descascada a mão da casca oca, da casca imposta. Sopro sagrado a entrar pelo lado esquerdo da memória. O cordão umbilical com a vida verdadeira, um bambolê a equilibrar meu corpo sobre sonhos. Folha seca do mesmo tamanho seu, a castanha, a fila feito cobra de pano a crescer, a crescer e a gente na dança do encontro de nascer livre, vê?


[Não é raiz, são galhos. A raiz é interna, inteira, você mesma. Não é raiz, são galhos floridos, fortes em giros de síntese de luz. Não é raiz, são flores. Não é raiz, são frutos. A raiz é só sua, nua, brotar silencioso de existir.]

Uísque a dois

[Mas o amor não se quer... se quer?] O amor é que quer [Eu queria te amar, mas tive medo que me odiasse] Qual seria a diferença de uma imaginação e uma lembrança não compartilhada? Não quero que você se embriague o suficiente para deixar algo de fora das suas lembranças...[Algo de fora de minhas lembranças?] Gostaria de deixar muitas coisas de fora do meu conhecimento, mas nenhuma que abarque você. [Como são seus poemas? Abarque... palavra parece barco em barca, você não ouve minha risada] Nenhuma memória que te abarque que eu desejasse deixar fora de mim.  Eu queria te amar, mas tive medo que me odiasse. [Quando eu escrevo, o sentimento fica diferente, faz as malas e vai morar no papel. Mas o amor não se quer... se quer?] O amor é que quer. O amante não passa de um querido. [Algo de fora das minhas lembranças?] A imaginação só traz problemas para quem a imagina. Não posso falar em querer amar. Amar não é um querer. Seria o mesmo que eu dissesse que eu queria que chovesse...Não controlo a chuva, tampouco o amor. [Posso te morder hoje?] Pode, se prometer deixar suas marcas sobre minha pele. [Só que o amor precisa querer e isso a gente nunca sabe] A gente nunca sabe o que ele quer. [Acho que ninguém mais fala sobre o amor, só a gente e os personagens Alice e Ulisses do livro que queria achar. ]O importante é que o amor fala através de nós.[você me faz rir igual criança]apesar e para além de mim. [você está poético mesmo. Deveria beber todos os dias.]A gente nunca imagina o que o desejo quer de nós. A imaginação só traz problemas para quem a imagina.

mercredi 18 mai 2016

Na última vez que morri


Na última vez que morri,
semana passada,
afogada numa poça d'água
aguada de mar pelo medo
[o medo faz chover nas cores
as borra de às vezes, quase sempre.]

Mas, ao abrir os olhos,
na ponta do pincel,
conduzia a palavramar
antes a arrastar meu corpo

O pincel abria a bolha
d'água a clarear
manchas da palavra mar
a secar, a nascer poça

[como morri numa poça?]



Hoje, o dia estava chuvoso
Caminhei pelas ladeiras
com roupas que nunca uso
A estrangeira recém-nascida
me contou  um pensamento outro
E disse que era meu,
disse que era eu.
Ficamos nos olhando por um tempo.

Acho que a morte deforma [um pouco] nossos rostos.






A contadora de histórias

A contadora de histórias
[onde moram as palavras]


Aula de aquarela
Profa Lourdes Barreto

aguada uniforme -  fundo vermelho
com criação livre
18/05/16

mercredi 11 mai 2016

Meu assassino,


Meu assassino,

Secar flores em feridas
vingança minha:
ainda ser amor,
["ter bondade é ter coragem",
lembra?]

Secar flores em feridas,
vingança minha:
reparti-las contigo, meu assassino
eu mesma as pinto
pigmentos do Bem do mundo

Secar flores em feridas
no dia do meu renascer,
a dança dos pássaros
ensina o Amor,
outra vez,
[vê?]

E te desejo bem,
serás [verdadeiramente] feliz, meu assassino.

Esse jardim é para você
deitar num dia após o crime
o sangue derramado na gola da blusa,
o coração contido nos dedos,
o sorriso copiado de um filme,
as cordas do objeto manipulado suspensas,
a faca deitada ao lado [ como uma terceira perna]

Deitado no meu jardim
de cores borradas de sonho
você vai respirar fundo
a força das flores
o Bem te abrirá como num susto
a consciência se esparramará em mar...

Neste dia, descobrirá:
ninguém mais joga xadrez contigo,
 você, meu assassino, jogou sempre sozinho.




[Respire a força das flores,
outra vez,
outra vez,
outra vez]

lundi 9 mai 2016

Janela


[Aquarela inspirada no trabalho do artista Sean Lewis]


Janela
Aula de aquarela
Estudo de cores terrosas
Profa Lourdes Barreto
04/05/16

Nuvem em nascer


Nuvem em nascer

Aula de aquarela
Estudo de cores frias e quentes: azul e amarelo
Profa Lourdes Barreto
04/05/16

Bosque interior


Bosque interior
Aula de aquarela
Estudo de cores terrosas
Profa Lourdes Barreto
04/05/16

mercredi 27 avril 2016

Emília


Emília
Aula de aquarela
Profa Lourdes Barreto
Estudo de cores quentes: amarelo, vermelho e laranja
27/04/16

O banquete: meu coração

O banquete: meu coração
Aula de aquarela
Profa Lourdes Barreto
Estudo de cores primárias quentes e frias: vermelho e azul
27/04/16


vendredi 22 avril 2016

Navio fantasma


Navio fantasma
Aula de aquarela
Profa Lourdes Barreto
Estudo de cores primárias e complementares: vermelho e verde
20/04/16







[Não ficou bonita, mas eu quero guardar aqui como memória de um processo, de um percurso de experienciação da linguagem da aquarela!]



Os retirantes


Aula de Aquarela
Profa Lourdes Barreto
estudo de cores primárias e complementares: amarelo e violeta
20/04/16

mardi 19 avril 2016

Negativo

[O vento bagunçou nossos cabelos na memória do ainda agora, achei bonito e misturei com aquele seu casaco verde embolado no pescoço, num faz de conta de cachecol, fotografias sobrepostas]

Arquivista do Agora

Uma memória com cheiro de maçã
apenas tenho esse primeiro verso
daquela manhã ainda agora
do tempo simultâneo
pinto um quadro, arrisco um traço
Cantina, uma mesa, nós quatro
cafés, mates, maçãs e palavras
desenho no corpo com luz
tua camisa xadrez,
[meu sorriso se fez],
no plano de fundo, um filme
Viagem à lua, de Meliés
lançados ao espaço do lado de fora
[no pensar]
a experiência do ouvir: "O Mundo diz"
a linguagem começa
o não dizível iluminado em amarelo claro
como uma fruta que se pode morder com voracidade
[e se lambuzar]
sem pressa repito "penso com os pés"
e o espaço se alumia, mas não existe espaço
o ser da linguagem e o ser da luz dançam no ar
Arquivista do agora, escrevo essa memória
em técnica mista: visível sobre cheiros



dimanche 3 avril 2016

Bloco de notas: cativeiro

Tarde de domingo, me desfiz água, desapareci entre o ladrilho e o ralo pequeno que há sobre o porvir. Tarde de domingo, me desfiz  pássaros e da asa azuluz confundi-me com
uma palavra em que você não caiba inteiro[dobra a asa]. Tarde de domingo,  me desfiz cativeiro, cara inchada,  rosto ressaca, a placa "sem saída" levantada sobre minha boca, vírgula.
Tua mão acariciava as palavras se soltando de meu corpo, catava com dedos verbos não conjugados, imperfeitos, soltavam-se como escamas. Em preto e branco, a placa crescia incisiva, inflamação de destino garganta a dentro: sem saída.

mercredi 30 mars 2016

Aviões de papel: solo para lugares comuns

Aviões de papel
arranham o céu
com palavras
a tinta nem sempre visível:
a pergunta mais importante
a pergunta mais importante
levam, contrabandistas

[De onde viriam?
Pra onde iriam?
Frágeis aviões]

Me olham [do papel]
as palavras dobradas:
a pergunta da vida
verdadeira

Tarde de março
corro em disparato
em fuga derrapo
tropeço na pergunta
sacudida no papel


Tomo um avião na mão
O barulho aumenta
[Teria também coração?]

Um filme lembra de mim
era a mesma cena
a mesma chuva
sem chuva

Procuro a câmera lenta
[Se pode me ouvir, dê um sinal]
As árvores altas ventam
Os olhos enchem d´água
Um orvalho se arrisca e rápido pinga
[Seria a coincidência da minha vida?]

Aperto o papel perto do peito
Amasso as palavras das asas
O coração dele descompassa
o silêncio em círculo cavalga

Desdobro ávida
o papel
[desfaço o avião]
a expectativa sonhada
o silêncio aumenta:
era a mesma cena
a mesma chuva
sem chuva

sem palavras
sem perguntas
sem coincidências
[Eu sei, ilusão apenas]

Em preto e branco,
a Imaginação
outra vez, só,
rebobina a cena







*
(penúltimo dia de março, 2016)




dimanche 27 mars 2016

Dama de Copas ou imóvel no meu nascer em sol

Presa
da torre
aquela estranha imagem volta
tua voz alta alta
histérica
como uma nebulosa  pra cima do meu corpo
tomas a palavra "livre" [ligeiramente inclinada sobre meu pescoço]
como um grão que tenta brotar
os olhos pesam
[até quando vou aguentar?]
o hospício diário agita outra vez
árvore genealógica:
poderá um ramo não apodrecer?
[poderá?]

Mais um tijolo ajuntas
a torre aumenta
Tu, a  Dama de Copas, me olhas do alto
"às suas ordens",  esperas que diga.
E tua voz toma meus cabelos:
o corte curto!
[Contenção, não se expandas, a dose medida]
Tua voz amarra meus braços
imóvel no meu nascer em sol
imóvel no meu nascer em sol
[mas és capaz de romper a luz?]

Cai o pano preto sobre a cena.
A Dama muda de face
Aristab

[Confinada
a vida estancada
a parte secreta da seiva
apodrecida
o cheiro entorpece
envenena
adoece ao redor
a raiz seca
o incêndio alcança
as margens em volta]

No cenário tarja preta:
resto-me,
último fruto
[mas és capaz de romper a luz?]


[ alguns cometas perdidos em desenhos antigos]

lundi 21 mars 2016

Dobrar-se


Fazendo hora
Fazenda em dobra
transa a mão
a linha grossa:
memória











(Uma dobra perdida - esboço de março 2013)

lundi 14 mars 2016

Bird


with two heads



[técnica mista: colagem, fotografia, edição de imagem]


Experienciando formas diferentes de imaginar...

jeudi 3 mars 2016

Águas


Águas
do inconsciente
[das palavras]


[ Técnica mista: desenho, colagem e fotografia.
Sereia inspirada na imagem Siren song, de Victor Nizovtsev, em 1965]





Sereia freudiana


[ Técnica mista: desenho, colagem e fotografia
Sereia inspirada na imagem Siren song, de Victor Nizovtsev, em 1965.]


Duplo

Volto a minha casa
debaixo d'água
[das palavras]
Metade peixe
Metade humana
Sereia freudiana









mardi 23 février 2016

Sonâmbulando

Sapatos vermelhos
um dentro do outro
com os bicos trepados
[de um jeito curioso]
sonâmbula coloquei?

A voz do sonho
A memória da voz
Despertam neurônios
em sinapse atroz

A porta tranquei?
A chave arranquei?
Na gaveta amarela
[como um segredo]
sonâmbula a deixei?

A voz do sonho
A memória da voz
Despertam neurônios
em sinapse atroz

A vizinha me disse:
Andei até a esquina
[fantasiada de Cecília]
para recitar poesia
na madrugada vazia?

A voz do sonho
A memória da voz
Despertam neurônios
em sinapse atroz

O prefeito me disse:
Gritei que era Pollock
Gotejei muitas tintas
[Feito chuva acrílica ]
numa antiga basílica?

A voz do sonho
A memória da voz
Despertam neurônios
em sinapse atroz


Em pé de frente
pra porta do entre,
de pijamas
[e lençóis da cama]
acordei.

[Acordei?]

No jornal de quinta,
no segundo caderno,
uma estranha notícia:
"A Sonâmbula Criativa"



Sete posições para secar memórias



(Aprendi com as pétalas)

Céusarda

Juntei pontos finais
 num saco cheio
da palavra cola

Lancei pro alto da manhã
os pontos pretos redondos

Na cara clara do céu
grudaram feito sarda
as estrelas inventadas


jeudi 18 février 2016

Siga o Coelho Branco em cena

            Dentro do recorte do retrato  do olhar de uma janela de madeira velha, vejo K. vendo [ deitada sozinha na cama de casal da avó Maria] um Coelho Branco gargalhando e um puta dia brando.O Coelho parecia tão humano, riu tanto, tanto que caiu fora da cena, tombando também a câmera. Por isso, nesta parte da história só consigo contar do escuro que havia embaixo da cama. Há barulhos de passos rápidos, devem ser de K., parecem algo procurar. Agora vejo novamente, o Coelho se levantando calmamente, sob duas patas apenas, encontra o olhar de K., parecem o mesmo. O Coelho Branco fala baixo e tão devagar, parece uma alma sábia a habitar aquele corpo, os olhos brilham como se fosse o avô H. Será? O Coelho Branco falante e conselheiro. Os olhos cor de folha seca também falavam manso, na linguagem dos brilhos. Os dois, Coelho e K, conversaram muito, até a câmera dormiu.     Acordei no ângulo em que as palavras pareciam vermelhas "Você sabe, K., eu estou com um machucado na cabeça!", disse o Coelho Branco e , ainda calmo, mostrou a ferida. A pele da cabeça do bicho humano mexia como se fosse roupa.  K. empalideceu em desespero. Na cena de sua mente, como um grande foco de luz que se abre na parede inexistente, ao seu lado estaria a ambulância,  o Coelho numa maca também branca, o cuidariam no hospital [ ou veterinário seria o ideal?]. Mas no primeiro plano, em zoom maior, o Coelho a olhava consciente, na casa toda apenas K desejaria que aquele Coelho sábio não virasse jantar. Ninguém ajudaria a cuidá-lo.           Ficaram os dois em silêncio, se olhando [filtro sépia]. "Vou te mostrar o castelo", decidiu a mulher. [ Escolhi o efeito aquarela para ilustrar o olhar de K. que era miope]. Passaram pelas duas grandes salas, os móveis antigos, os espelhos com moldura de contos de fadas, longos tapetes, a mesa da sala de jantar cheia de uvas, mas passaram tão rápido como quem dá um passo e logo chega ao outro lado da vida.
          Eis a cozinha em festa![ Modo automático sem flash] Muitos familiares falavam  alvoroçados e enfurnados, rodeando a mesa menor com um bolo. "Passe por aqui mais depressa", sussurrou K. nas orelhas brancas, temendo que alguém quisesse dele fazer uma sopa. Ninguém percebeu a passagem dos dois. A família em festa estava muito preocupada consigo mesma.          Finalmente, chegaram ao corredor estreito [ tom monocromático], quando o Coelho ofegante disse "Estou muito cansado. Não me sinto bem. Acho que andamos para caminhos do além.". K. o fitou aflita sem saber o que fazer. Quando quase sem perceber,  a metamorfose se fez. Como se houvesse uma mágica cartola, aquele Coelho Branco e sábio se converteu em uma fina serpente com dentes. Na posição para o bote, ameaçadora.          K. tremeu o corpo um pouco e fechou a porta na cara da cobra. Ofegante ainda fez peso na porta antiga para não abrir. Ainda aflita, tomou coragem e tirou a chave da fechadura, espiou pelo buraco: a serpente sem consciência, apenas com instinto de sobrevivência, a definhar no corredor. Ao seu lado, água e comida, mas para coelhos. A escamosa agora já enjoada deste alimento, morreu seca de frente para uma grade lateral.          A câmera tombou, desta história se cansou, em choque confessou a nós, leitores, que queria filmar um outro desfecho. Mas, depois, ergui minha lente, rebobinei o filme,  zoom em texturas e falas surreais. Confesso agora que daria o mesmo ponto final.  "O trágico também faz parte da vida e nos humaniza.", digo com minha voz metálica e pisco as pestanas da lente, a bateria quase no final.





mercredi 17 février 2016

Azulethes

Volitei ao teu lado,
rosto amigo antigo,
primeiro namorado,
meu poeta-abrigo.
No sonho, sozinho
navegava um barquinho
num imensolargo rio.
Invisível, te encarei,
ouvi teus pensamentos,
coração do bem,
memórias aquecidas,
Duas almas afins,
um amor de outra vida,
ímãs místicos da  poesia.
Teus cachos balançavam
como a proa da canoa
cada vez a mão da água
afundava mais um pouco
teu corpo 
Tuas velas acenderam
meu nome subitamente
entre sinos e submarinos 
como grandes crocodilos.
Mas no azulethes da noite, 
nossas palavras de luz
consertavam os  orvalhos
da máquina do mundo.
Obrigada, poeta anjo, 
por ser escrito em mim
assim feito velho sonho.



"I've heard that innocence
Has led us all astray
But don't let them make you and break you
The world is filled with their broken empty
dreams
Silence is their only virtue
Locked away inside their silent screams
But for now
Let us dance away
This starry night
Filled with the glow of fiery stars
And with the dawn
Our sun will rise
[...]
I'm transcending
The fall from the garden"
(Don't fade away - Dead can Dance)






mardi 16 février 2016

Todo carnaval tem seu fim

Cena 1

Bueiro preto
fantasiado
quase todo de grama
com chapéu bambo,
um passo,
bum!



Cena 2

Minha perna
Violento
Violou

O soco,
Abriu o corpo,
o afundou no esgoto:
tua gosma escura
sujou minha dor




Cena 3

Emergência
tua língua de asfalto e cactos
a rasgar minha boca

Fios  absorvíveis
de origem animal
a suturar as palavras não ditas
a cicatrizar a ferida
ainda coberta de gaze
vermelha







vendredi 25 décembre 2015

Anexo 2

Querido R,
enfeitei a árvore de natal como você pediu, deixei uma estrela cadente na ponta, daquela que desiste de cair e faz de conta que é concha no fundo do mar. Seu cartão chegou pela manhã, num envelope amassado de vermelho, tremia um pouco olhando assim pelo sol do meio dia na caixinha de correio. Pisquei algumas vezes para ser certeza, o barulho do rasgo, carta aberta no meu corpo. Fiquei ouvindo sua voz enquanto lia, mesmerizada. Achei bonito como você tosse entre os períodos que começam com letras minúsculas e quando sussurra a palavra cabum, logo cabum que parece feita para explodir. Dei aquela minha gargalhada alta, você pode ouvir? Enfeitei com as suas palavras as janelas, cortinas e a mesa, adocicando algumas frutas prestes a mofar. Hoje à tarde, pintei um anjo com nuveasas, coloquei teu retrato para secar, enquanto seu pedido me rodagiganteava.
Quando você vai voltar?
J.

jeudi 12 novembre 2015

Anexo 1_ Fotografia pia da cozinha

Anexo 1_Fotografia pia da cozinha

Querido R.,
não sei como começar essa carta, mas a escrevo como quem coloca as palavras para secar,o azul seca, a espera seca, mas molho palavras no que me resta do teu copo de café, ou "de mate", como você diria. É, eu sempre troco isso,você lembra? Essa foto, R., guarda a tua  ausência e a história da minha espera em pratos limpos brancos,um azul pousado num bule estranho, uma louça que pesa, uma pia retrato do silêncio, vê?

Tempo





(Texto escrito na atividade proposta na oficina de Fotografia e Narrativa,  ministrado pela professora Cris Miranda - CAp, no Encontro de Literatura Infantil e Juvenil 2015, UFRJ)



mardi 3 novembre 2015

Novembro

Novembro olhos recém-abertos
me toma pelos braços a dançar, 
eu rio tanto tonta pelos cantos
como quem nunca antes a amar,
mar selvagem a invadir sem medo:
ventando dentro de mim, Novembro!
ventando dentro de ti, meu cheiro!

Mas no teu piscar, eu parto,
como se você tivesse me pintado
sonho
[sonho sozinho é ilusão, meu tempo!]

Num bilhete, escrevo:
Novembro,
não quis te magoar,
mas, antes de ti, aprendi a  ir,
adeus.

samedi 31 octobre 2015

Palavrar a brincar

Palavras que sonham, 
de trem,  a alguém, 
gota d´ água, 
demármore,
palavras pedras,
cuspidas,
mastigadas,
 a quem?
palavra demorada,
areia derramada,
palavra queimada, ai!

Palavra lá a apontar,
crescer, atirar, 
acariciar a 
palavra horizonte,
palavra embrulhada 
presente, azul,
de tão, de vão, arpão, 
dequem?, 
palavra sim, plim! 
e não,
palavrão!

Palavra com memórias,
novelo de histórias,
baile de máscaras,
nos olhos araras,
talvez com guarda-horas,
cheiro do agora,
raiz redonda da asa,
certidão de nascimento inventada,
a palavra janela,
setembro, imenso, inteiro,
palavras compostas
astronauta-teu-beijo,
corda-bamba, 
três-queijos, 
batata-quente,
risos-berinjela.



Palavra velha,
tagarela,
desempre,
como era?
a palavra entrega, 
pisca-pisca  na
palavra retrovisor,
depois, atrás,
invertida,distorcida,
parede descascada,
palavra que não lembro mais.

Palavras que acordam,
fazem cócegas,
mais o quê?
riscam estrelas,
explodem planetas,
palavras calabouços,
palavras mas,
as adversativas, 
entretanto,porém,todavia,
toda a vida,
trancafiadas, 
identidade rasgada,
arranhadas,
aranhas que riscam voos, 
palavras bêbadas,
bem-humoradas 
palavra vrum, pum,
lugar-comum,
palavra palavra
com versinhos,
com versão, 
a palavra verão a secar,
a ventar sem rimas

Palavras de subversão, 
a lutar
váriasvozescoladasemuma

Ou  palavras sorvete de manga
[com pimenta]
palavras molhadas
a pingar tua risada
palavras para deitar em
dias-nuvens a ser mar, 
palavra neblinha,
palavrinhas, 
passarinhas,
palavra agora,
palavrupts, 
palacrash,
palavrazum,
corazon, sino, rosa,
palavra que beija o que toca,
palavra tãn, 
palavramar, 
intransitiva, 
palavras não ditas,
riscadas,
esquecidas,
engolidas,
esparadrapadas,
dopadas,
palavra livro
a desassossegar ,
livres a entrar
na palavra vida
entre porta e poesia,
carta, utopia, vírgulas,
saudade no chalé, 
café na pequena xícara
do "amar é..." 
a palavra tulipa
vestida para festa,
a palavra querer,
palavra para ser, 
palavra para incorporar, 
ah, palavrar a brincar!



[agora é sua vez!]