samedi 31 octobre 2015

Palavrar a brincar

Palavras que sonham, 
de trem,  a alguém, 
gota d´ água, 
demármore,
palavras pedras,
cuspidas,
mastigadas,
 a quem?
palavra demorada,
areia derramada,
palavra queimada, ai!

Palavra lá a apontar,
crescer, atirar, 
acariciar a 
palavra horizonte,
palavra embrulhada 
presente, azul,
de tão, de vão, arpão, 
dequem?, 
palavra sim, plim! 
e não,
palavrão!

Palavra com memórias,
novelo de histórias,
baile de máscaras,
nos olhos araras,
talvez com guarda-horas,
cheiro do agora,
raiz redonda da asa,
certidão de nascimento inventada,
a palavra janela,
setembro, imenso, inteiro,
palavras compostas
astronauta-teu-beijo,
corda-bamba, 
três-queijos, 
batata-quente,
risos-berinjela.



Palavra velha,
tagarela,
desempre,
como era?
a palavra entrega, 
pisca-pisca  na
palavra retrovisor,
depois, atrás,
invertida,distorcida,
parede descascada,
palavra que não lembro mais.

Palavras que acordam,
fazem cócegas,
mais o quê?
riscam estrelas,
explodem planetas,
palavras calabouços,
palavras mas,
as adversativas, 
entretanto,porém,todavia,
toda a vida,
trancafiadas, 
identidade rasgada,
arranhadas,
aranhas que riscam voos, 
palavras bêbadas,
bem-humoradas 
palavra vrum, pum,
lugar-comum,
palavra palavra
com versinhos,
com versão, 
a palavra verão a secar,
a ventar sem rimas

Palavras de subversão, 
a lutar
váriasvozescoladasemuma

Ou  palavras sorvete de manga
[com pimenta]
palavras molhadas
a pingar tua risada
palavras para deitar em
dias-nuvens a ser mar, 
palavra neblinha,
palavrinhas, 
passarinhas,
palavra agora,
palavrupts, 
palacrash,
palavrazum,
corazon, sino, rosa,
palavra que beija o que toca,
palavra tãn, 
palavramar, 
intransitiva, 
palavras não ditas,
riscadas,
esquecidas,
engolidas,
esparadrapadas,
dopadas,
palavra livro
a desassossegar ,
livres a entrar
na palavra vida
entre porta e poesia,
carta, utopia, vírgulas,
saudade no chalé, 
café na pequena xícara
do "amar é..." 
a palavra tulipa
vestida para festa,
a palavra querer,
palavra para ser, 
palavra para incorporar, 
ah, palavrar a brincar!



[agora é sua vez!]





vendredi 16 octobre 2015

Não entre.

Você que mora no futuro
debruçado na janela
movediça da minha vida
do antes
do vício do cio de cicatriz por um fio,
não entre.

Você em branco, breu, nada, 
sem importância, passante na multidão da Cinelândia ou Presidente Vargas, vaga 
porvir 
num mapa de apenas [até hoje] uma grande e longa rua com um só nome
nome não teu,
não entre.

você preso no espaço do antes,
você que me olha, às vezes, da tela
movediça do tempo que sonha
[vela acesa]
e pisoteia o pouco silêncio do sótão,
Não entre.


você sem rosto entre tantos
você que talvez eu irei num dia
[ em tesão do ainda]
amar [verdadeiramente]
trocar livros e longos telefonemas
cheiros, vontades, cinemas
músicas e cartas mais bonitas 
medos e segredos da infância
[um urso que se chama Melvin]
cheiro de mel, beijo nos olhos,
mãos dadas, melhores amigos
um dia teu "namora comigo?",
não entre.

Você que um dia cansado do amor
acordou entre um enjoo e outro
depois de me apaixonar
a faca enfia [manso como um psicopata]
nas palavras
do antes,agora ontem
a incendiar
Mais um copo de vinho ou de chopp
entre noites que  você não veio
meu mas acordado
a escrever cartas de madrugada [rasgadas]
a enfeitar a porra da espera com argumentos fracos
a paixão no arpão do teu desleixo
você sempre ocupado, "depois eu falo",
de repente meu nome como uma palavra que pesa e confunde
riscado como se nunca existisse
você que mentiu, me iludiu, babaca egoísta
você não sabe o desfecho do hoje:
à noite, do  mais alto prédio de São Paulo,
no céu cinema, enceno Ofélia num rio
me atiro [louca e sem sentido] no teu risco.
Não entre.
Não entre.
Não entre.




mardi 6 octobre 2015

6 de outubro - livre arbítrio

A cura  encontra meus olhos
na maca de uma casa de luz
Lençóis brancos, alma sincera
A prece como uma rosa aberta
entre meus dedos expurga medos
[cautelosamente e sem ruídos]
Entregue às energias elevadas
vindas de mãos ao bem devotadas,
em gratidão, me entrego virtuoso à
busca de um coração mais generoso!
[Você vem?]



Rua sem saída

Na última casa do final da rua sem saída
[seria uma metáfora da minha vida?]
meu portão verde mais parece ironia

Da casa da frente, a roseira vermelha espia
um navio entra por engano na avenida
e ancora teu nome de frente para a utopia
[perto da minha janela]

A palavra ancorada pesa como um prédio
Balança a minha casa como num mar aberto
Estilhaça as vidraças com vista para o aperto

 A falta derrete na boca como uma mesa






Sala de espera

Uma criança  balança
pernas no alto da cadeira
purpurinas na trança

Na sessão da tarde,
uma personagem dublada
sem mexer a boca, rápido fala

A ansiedade sentada na minha cabeça
Toma meus dedos à força
e enrola sem parar meu cabelo
perto da raiz, do lado esquerdo.


Duas e meia da tarde sem livro ou sol
Dentro de um prédio comercial
Esperando a otorrinolaringologista
Na Rua República Árabe da Síria



[Uso interno - palavra otorrinolaringologista:
pronuncie devagar, assobiando as letras
uma vez à noite na direção do mar
entre a linha que reparte as dúvidas e as peras]





Trança



Tranço o desejo de selvagens fios
Domo seus cascos e relinchos grossos
contra minhas mãos machucadas

Divido o desejo em três: olhos, garras, seixos
puxo-os estreitamente rente aos vermelhos
estico cheiros entre  xícaras e medos

Os olhos trançados sobre os seixos em sexo
As garras trançadas entre seus grasnidos
Orgia de orgasmos trançados e contidos.

Na ponta da trança, a palavra "não" enlaça
teu nome como uma fivela de papel

Afundo a trança domada num aquário de pano retangular
Para quando encharcada, arisca e tonta
Possa colocá-la ao sol para da sede secar












lundi 5 octobre 2015

5 de outubro - anoitecer

Mesa da sala, roseira  e bilhete
Um avião entre Porte Alegre - Rio
Praia da Bica, debaixo d'água,
alguém lê um livro
sobre piratas, sereias e paixões
Aeroportos voam dos chãos
Lambuzo uma manga limpa
Adamastor se petrifica sem sua ninfa
O Tempo toma chá frio e sem açúcar comigo
[Chove fininho]
Uma garça enfeita o telhado do vizinho
Pelas ruas, vou de trança e vestido xadrez
Não lembro mais de você.



5 de outubro

À noite, andei quilômetros para
encontrar uma padaria acordada
com torta ou bolo de infância
(daqueles doces muito doces
que disputo com as formigas)
Comi só o recheio enquanto
a repórter dentro da 'tevê' dizia:
"Cientistas japoneses descobrem
cada pessoa é única por sua forma de andar"
Um gato passou na esquina vazia 

 Não lembrei do seu olhar.





lundi 28 septembre 2015

Outra vez

A festa acabou. Espio tuas frestas no salão fantasmagórico. Uma bola de plástico colorido balança ao vento e estoura, pá! Pulo de dentro de mim e caio espalhada pelo chão vazio da festa, entre guardanapos sujos e pedaços de ilusões. Fico um tempo olhando para o lustre caleidoscópio de brilhos prateados, faço de conta que o lustre é lua. Depois, tombo os pensamentos para teu silêncio. Por quê? Por quê? Por quê? A festa acabou. Chegamos tarde, amor. Eu, enfeitada de flor, perfumada de espera, com um salto sem equilíbrio, com o coração convidado para o beijo teu, fico olhando as luzes refletidas no lustre, holofote da minha dor. Um brilho cai feito faca sobre meus olhos, parece barulho de porta que se fecha. Outro brilho cai feito arpão sobre meu peito, "da última vez que morri...", era esse o poema?, penso e uma lágrima seca. Um vento mais forte cobre o salão de marfim, o vazio parece feito de elefantes enormes e pesados a atravessar meu corpo e pensamentos. Eles riem "Como você pôde acreditar outra vez?", diz o elefante pisando sobre tuas mãos em meus cabelos. Eu,seca e partida, respiro aflita entre os elefantes, deitada no salão de festas vazio. De repente, pá! Outra bola estoura, mais parece tiro! "Dessa vez, precisa ser fatal", pensei. Mas não era, teu nome ainda estava em minha pele, um pouco esmaecido. Havia entornado café, chá, vinho, mas teu nome na minha boca vermelha vermelha ainda. Não um  ainda de às vezes entre véus, mas um ainda de mais vezes entre céus. De repente, a música rompe no salão, penso em me levantar, mas antes os elefantes a dançar, a dançar, a dançar sobre meu corpo aberto.

samedi 26 septembre 2015

Relógio

De que nos serviria
um relógio?

Se deito em tua perna:
é dia.

Deito no silêncio:
é noite.

Se beija meus olhos e sorri:
é dia.

Se fechas os olhos para o mundo:
é noite.

Se faz cosquinha em meus segredos, secando todos ao sol:
é dia.

Se amarra as vontades aos pés dos medos:
é noite.

Quando encontramos um ipê amarelo ou um bolo de chocolate sem glúten:
é dia.

Quando não encontramos:
é noite.

Se te mordo igual passarinha ou sinto sua boca encostando na minha:
é dia.

Se a mordida de lobo é maior e mais doída:
 é noite.

Se invento um faz de conta com bolas de gás coloridas por dentro dos sonhos com conversas longas sobre o mundo, madrugada a dentro:
é dia.

Se você não sonha:
é noite.

Boina vermelha, tua barba, tuas mãos tocam meus seios:
dia.

café gelado, telefone sem bateria, teus olhos com raiva, tua faca sobre o peito:
noite.

Se pelo corpo acho teu beijo, tuas mãos, teu nome:
dia.

Se encontro teu rasgo:
noite.

Se abotoas meu casaco de velhinha em ruelas que levam à Cidade Nova:
dia.

Se o frio venta os sonhos:
noite.

Se enfeita a janela que se abre em minha barriga de borboletas azuis:
dia.

Se as borboletas secam:
noite.

Se entorna e bebe minha água sobre teus desejos:
dia.

Se encolhe as vontades em banalidades:
noite.

Se me acorda com beijo nos olhos:
dia.

Se teu silêncio pesa em minhas pálpebras:
noite.





Mãos dadas, hall do prédio verde, velhinha que conta histórias do seu tempo:
dia.

besouros que rondam, nossa história em branco:
noite.

Quando uma nuvem toca o som do teatro mágico e daquela banda antiga:
dia.

Quando a música é angustia:
noite.

Se ligas numa hora de pijamas e livros:
dia.

Se puxa o alarme da dúvida:
noite.

Se teus olhos anunciam infindos e mistérios por onde me perco:
dia.

Se me lançam ao precipício:
noite.

Se um vaga-lume que sonha em ser artista desenha um poema no céu movendo pequenas lâmpadas e estrelas:
dia.

Se as panteras nos rodeiam na escuridão:
noite.

Se um ipê amarelo guarda iluminado o nosso beijo:
dia.

Se uma infiltração abre entre nossos dedos:
noite.

Se você me espera na porta das palavras num sábado quente:
dia.

Se as heras cobrem a espera:
noite.

De que nos serviria
um relógio?






(Poema inspirado  no poema relógio, de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas)





mardi 8 septembre 2015

Limerência



Não consigo levar a vida leve
do protocolo social: boates, ficadas, encontros casuais...
Quero raízes, afunda minhas mãos na certeza das suas!
Quero histórias enfeitadas de palavras trocadas, cartas,
Olhar com montanha, balanço e vento por dentro?
 Por que me sinto assim molhada de sonhos?
brilhando de azul, azul, da rosa azul?
Fios espalhados entre dedos que ainda não existem.

Você ainda pode me ouvir?
Por que mudou a música?
Me balanço no balanço dentro dos teus olhos,
daqui, parece que ouço um trem,
 ele vem, vem, vem, cada vez mais forte
 passar por cima do meu corpo nu, entregue...
Eu sei, nada sobrará.

Caminho na ponte de dentro dos teus olhos,
 vendada,
 não sei quais os caminhos percorro,
 ouço tua voz com trechos de uma história de lobo,
a espera e seu cheiro de pipoca em dia chuvoso,
 algum botão meu fica mais forte,
 mas o desabrocho  com palavras retas,
quando minha alma gira secretamente em espiral,
repleta de pequenas borboletas azuis
com  palavras nas pontas das asas...
voo

lundi 24 août 2015

"a blue bird inside my heart"




"There is a blue bird inside my heart", uma tentativa de voo no final de agosto...



"there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?"

Charles Bukowski

lundi 17 août 2015

O Velho e o Mar

O Velho e o Mar

Porto:
Santiago acena.
No pequeno barco,
brilha meu maior sonho
enxugo os olhos com sal
e o brilho aumenta
Parto ao meu parto,
Na ausência de Manolin,
candidato-me!

Barco:
À noite, as estrelas no mar
desenham meu sonho entre
a linha, o anzol e a isca.
A Espera na proa do barco,
de cabelos bagunçados,
boceja calma e sopra outra
sombra na água, a expectativa.
A linha treme, o barco balança,
o Nada nada, outra vez.

Amanhece, os remos cortam
túnel de nuvens em esperança
a linha e o anzol dançam no azul
profundo como a fome do Velho,
Sardinhas cruas apenas nos restam,
mas ainda sem limão ou sal!
Na mão esquerda,  o Velho com a linha
 presa nos dois dedos, nenhum peso
E o vento sopra com suavidade.
A linha treme, o barco balança,
o Nada nada, outra vez.

Hoje à tarde, arrumamos os remos,
"não precisamos matar as estrelas, ainda bem!",
o Velho  disse e a noite agitou o barco,o esperado momento!
Na linha, um puxão se fez ligeiro, um esticão violento,
"Vamos!'- bradou  o Velho - "Coma a isca, meu peixe!",
E a linha correu pelos dedos, sangrando-os, sangrando-os.
O anzol treme,o azul dança, o barco balança,
"Meu Deus, o enorme peixe!", pela primeira vez,
tão grande, muito maior que o barco,
Do tamanho exato do sonho de Santiago!

Sangra o Sonho:
Um pássaro pousa na linha, treme um pouco e voa,
"A Sorte  foi ser Vento longe de nós!", o Velho entoa.
E o peixe nos arranca mar adentro, mar aberto, mar a ermo,
Mas a linha não se rompia, nem o peixe, a fome ou anzol.
O barco girou, assim, oitenta e quatro dias, forte e cansado,
até a coragem com seu arpão faminto rasgar do peixe, o coração! 
Boiava o corpo imenso de escamas cinzas, num rastro vermelho e azul.
 Junto ao barco,amarrei as cordas pelo corpo do peixe silencioso.
"Conseguimos, Santiago!", disse sem falar, ele olhava rumo ao mar.


Entre azuis, fomos seguindo, rumo à costa invisível.
 Logo no início, na trilha do sangue, já surgiram: tubarões!
Os primeiros, matamos a facadas e arpões,
Mas, à meia noite, o cansaço entornou pra dentro do barco,
"Santiago, não há mais facas! Não há mais arpões!",
entre o mar agitado, voltaram vários tubarões!
Olhos amarelados frios a devorar tão rápido a carne do Sonho,
numa bocada só, estilhaçada entre os dentes brancos,
"Do imenso Mar, só nos restou a espinha.", o Velho respira.


Cais:
Avisto o cais, o barco pousado, a sombra do Sonho descansa.
Na areia, afundamos ou andamos com as velas nas costas.
Manolin surge, chora ao olhar a espinha presa no barco.
"É inacreditável!", diz, "Esse é o maior peixe que já se viu!".
De volta à casa, eu e Santiago, entre jornais como almofadas,
adormecemos lado a lado, partidos e secos, sonhamos com leões.






 Escrita inspirada na experiência de leitura do livro O Velho e o Mar, de Hemingway!É, essa história me tocou...


Fotografia de 2012, mas esse texto pede  uma aquarela... quem sabe?





dimanche 9 août 2015

Para meu pai, com carinho!

Pai é uma palavra careca,
trabalha bastante e gosta de ganhar
meias pretas e cuecas!

Pai é uma palavra  comilona.
Sanduíche velho ou chocolate,
ele detona!

Pai é uma palavra companheira.
Na rua debaixo de casa ou
no deserto do Saara, ele me leva,
 mesmo que eu não queira!

Pai é uma palavra porto seguro.
Se os ventos improvisam noite
ou a alma abre furos,
ele nos protege do escuro!

Pai é uma palavra passarinho.
Na verdade, essas três letras
são um novo pio!

Pai é uma palavra ninho.
Abrigo trançado de pão  e amor,
com esforço diário, forte linho!
De onde lancei meu primeiro voo,
E ele, ao meu lado, sorriu!

Pai é palavra azulão
E eu, palavra amarela.
Juntos, somos um verde
feito balão ou estrela.
Juntos, pai e filha,
 somos  um ritmo que
faz cócegas  no umbigo,
um som invisível que
 guarda infinitos,
 toca aonde for,
é feito de luz
e se chama: Amor!



Feliz dia dos pais, pai!
Te amo!
De sua filha, Juju




"Nunca se esqueça da alegria dos seus olhos
e do seu coração." (Madre Teresa)


A louca dos giros

A louca dos giros

A Ilusão é uma andrógina rosa azul:
miraculosa, incólume aorta do eterno ainda 
de olhinhos opacos de vidro sem brilhos e míopes,
andar inquietante, em círculos, a girar no mesmo lugar da Espera,
no pátio dos afobados, todos os dias, de mãos suadas,
cigarro em fumaça a desenhar no ar um incompreensível tarot.
Ela, tantas vezes cigana, estava vestida elegante como se fosse a festa no hospício. E um sonhador diz:
- Olha, outra vez, a ilusão em giros, sem ficar tonta, sem envelhecer! - E corre para com ela se deitar.
A louca dá uma gargalhada alta, mas nada se mexe, então, risca um fósforo verde  e ateia  fogo em si! Ah, o súbito incêndio das vontades esquecidas ardem em seu corpo silenciado na fogueira ensandecida de Talvez.
E o sonhador se lança também no incêndio como se fosse Ícaro, mas sempre é tarde demais. Na cera derretida de suas asas, a mesma mensagem da "louca dos giros" repara:
-  Amanhã, meio-dia, no pátio dos afobados, como se fosse festa no hospício, novamente, estarei. Você vem?

(esboço, 2013)

dimanche 2 août 2015

Agosto dentro da lua

Agosto começa dentro da lua cheia,
num gozo de vaga-lumes do mar,
a lua tontalontra, meio balão, tombou pra
dentro de mim, trocamos,enfim, de lugar:
apareci redonda relâmpada, plena de luz,
o escuro me acariciava com palavras azuis,
vinho para a saudade adormecer...


Do alto, o mar parecia o céu de Chagall,
os peixes como estrelas móveis entre
nosso segredo guardado pelo roxo.
Teu rosto  estava em tantos outros,
difuso, outra vez, a vontade bruta
ilusionava teu verde em ondaslongas,
pisca-piscavam, pisca-piscavam,
é você?

Meus grandes olhos amar-elos de lua
pousados no banco da flauta, sozinhos,
ah, o incêndio da espera sem esperanças
abre meu corpo lunar em súbita manhã,
as labaredas ensaiam  fogos de artifícios
no beijo inventado que no Nunca te dei.














mercredi 29 juillet 2015

Eu amo você

Um arrepio pelo corpo, é aquele tremelique que volta, lembra? Desde criança a mesma história, quando isso acontecia,  a vovó dizia "é anjo que passou!" e, na minha cabeça, sentia suas asas macias e longas fazendo cosquinha em meus sonhos. Mas hoje a tremedeira voltou sem anjos, sem nossa avó, era calafrio de medo, como dizer? Você ainda está na varanda do seu apartamento fumando e pensando? Como te livrar da sua dor? Você não vai acender mais um cigarro, vai? Um dia, vou esconder todos os maços que existem no planeta, não vou deixar mais, você entendeu? 

Sei que você pode sentir meu amor no momento que escrevo! Presta atenção no que existe de belo no mundo, o sono calmo vem vindo, você está nas mãos de Deus, Ele nina todos os seus desassossegos, não há mais ventos fortes nesse momento, apenas as estrelas cadentes a envolver sua alma! Há uma energia de cura em torno de sua mente sintonizando com o que for do bem, os pássaros, as flores, leoas (como você gosta), a astrologia diz que hoje é o grande dia da sua cura,  pois todos os astros estão posicionados vibrando luz para seu olhar. Quando acordar amanhã, seus olhos estarão pousados de paz, orvalhados de esperança, serenados de afeto.

As tempestades se foram, eu vou te proteger como você fez comigo quando éramos crianças, lembra? Quando me estabaquei de bicicleta na pracinha e você me levantou no colo, eu chorava muito, toda ensanguentada, aquilo tinha sido feio, e você estava ali, deixou sua bicicleta largada em qualquer canto e me levou, mesmo aos prantos, no seu colo até em casa,  eu tinha uns cinco anos e você uns dez. Acho nessa época  tinha tanto mar em torno na nossa casa que você me ensinou a dobrar barquinhos de papel. Dobrei tantostantos que passamos meses navegando em diferentes oceanos, inclusive um lilás, o problema foi que, de acordo com papai, não era nada disso, disse que eu tinha entupido a caixa d'água com meus navios, ele não acreditava!

 Eu não esqueci, não esqueci, quando enfrentamos vários Cabos das Tormentas, juntos. Achei que o navio ia se rasgar, mas seu coração destemido brilhava coragem e tudo parecia se acalmar. Agora não há o que se preocupar, os ventos sopram novamente em calmaria, o coração serena, você sente a plenitude, a cura. Você é maior do que a doença! Eu amo você, eu amo você, vou te salvar, eu vou te salvar, aguenta mais um pouco, por favor!

mardi 28 juillet 2015

Na casa da esquizofrenia

Na casa da esquizofrenia,
não há eufemismos.





Luta contra o estigma das doenças mentais!

28 de julho ou Sol da meia noite



Diário de férias


Sendo pássaro:
asas abertas de azulis,
alma espalhada de flores
ou bombom de torpor!
A liberdade de ser brega
de dizer o que se espera,
a liberdade do lugar-comum!
Sendo pássaro:
voo agitado da euforia
da vida leve que nasce
como longanuvem, plim!
A chuva alagalarga o sentir!
O mundo agigantado
de vinte e nove vazios...

Ah! O sexo do Vento
com meus pensamentos
invadidos de vontades
de experienciar a existência!
Pôr do sol com bicicleta,
boina vermelha, coração, giros
em Montevidéu,
Livros devorados, filmes esperados,
 exposição sobre Picasso,
ou Chagall com La Fontaine!
Amigos, Teatros, Planetário, Arpoador,
patins na Lagoa Rodrigo de Freitas,
beijos apaixonados com gargalhadas
na Ilha do Governador!
Nuvens em nossos olhos a brincar
 de sonhos sem cessar!
A louca lua fosforescente
entorta o tempo para nós:
um segredo ilumina o escuro...
Os pássaros dançam plenos
Os pássaros dançam plenos
do sol da meia noite!
O amor se espalha... 
A alma em neon na madrugada!
Você pode sentir?
Como caber em mim?
Como caber em mim?
Brotam flores de botas,
cartão-postal da minha alegria!
Mas a palavra alegria não diz
aquilo que vibra em mim,
como se diz?


Ah, a corda bamba da euforia agita
tintas nunca antes vistas, outra vez!
Roda gigante gira debaixo do Mar!
As crianças sabem: hoje,
nascem os filhos dos ovos azuis
e os ventos ninam abandonos!
Três vaga-lumes invadem
o céu da minha boca!
A cidade enfeitada de pequenas esperas,
bandeirinhas da Festa de Santo Antônio...
Incendeio o capítulo Quando Wendy Cresceu,
Giro a Chave do Tamanho!
Nas cidades subterrâneas da tua ausência
brotam rosas, calabouços, ventiladores!
Meu astronauta acena do espaço
E outra vez confessa:
meteoros sonham 28 de
 julho em férias
semponteirosemponteiros
pra crianceira de ser
Feliz!

Você vem?





(Mas no plano de fundo da paisagem,
atrás das pequenas bandeiras enfeitadas,
os azulejos fotografam antigos gritos,
ecos repetidos como se fosse festa.
Na casa  da esquizofrenia,
 não há eufemismos.)
 



(obs.: Fotografias que tirei da Livraria do Centro da Cidade de Montevidéu)

samedi 25 juillet 2015

Mãos dadas

              Pisei em um gramado de um pátio enorme, orvalhado da chuva incessante. Algumas gotas ainda pingavam das folhas das árvores. Havia várias meninas de vestidos brancos esvoaçantes amarelados pelo tempo, pareciam zumbis que esqueceram o porquê estavam ali, mas eu sabia. Na nossa frente, havia uma casa velha e enorme com uma porta de madeira antiga e uma campainha quebrada. Aquele lugar não me era estranho, parecia memória de infância que volta como se fosse filme. Ficamos parados em frente à porta pesada de medo, eu e um grupo de pessoas, enquanto as meninas zumbis ao redor esvoaçavam o amarelado de seus vestidos. Elas eram aquelas que não tiveram a coragem de enfrentar a prova, de entrar na tal casa assombrada. Era uma espécie de casa da provação, algo me dizia, algo daquela memória antiga, eu já havia estado ali. De repente, a Laís e uma outra menina entraram pela porta estranha e ouvimos um grunhido forte, a casa tremeu! Grudamos todos nos vidros das janelas fechadas, o vidro embaçava entre o frio e as cortinas do lado de dentro, eram finas de brancas, pareciam cortinas de nuvens, mas imóveis como nós. E o barulho do grunhido aumentou, elas tinham acordado um bicho!

            Pela janela, vi um rabo escamado enorme mergulhando em  águas, era um gigante crocodilo! Meu olhar mergulhou junto com ele naquela sala de águas, parecia uma lagoa grande e escura. E sala tem lagoa? Ainda olhando de relance pela janela embaçada, avistei Laís e a menina respingadas de água, como estátuas grudadas à porta, só que do lado de dentro da casa.  Elas tinham acordado a tal criatura escamada que mergulhava e vociferava profecias na língua dos monstros marinhos. Meu olhar tremido desviou para a esquerda daquela sala do crocodilo gigante, lá, tinha uma escada também enorme, feita de mármore e  cheia de girosgirosgiros, os degraus suspensos no ar... era por esse o caminho que teríamos que passar! Laís e a menina rápidasrápidas voltaram pro outro lado da porta, onde estávamos, o lado do pátio, nada temiam e avisaram ao grupo sobre o que enfrentaríamos. Não sei direito o que falaram, pois lembrava da última vez que eu estivera ali naquela casa das provas e quase morri com aquele mesmo monstro crocodilo. Mas não tive tempo de desistir, pois todos subitamente se moveram para entrar na casa e a Ju Mar segurou minhas mãos as dela e me puxou muito forte. Sem pensar,  entramos na sala das águas bizarras.

           Minha visão embaçou, a Ju ia me puxando rápidarápida pelos degraus de mármore suspensos no ar,eu nada via, parecia neblina, o que acontecia? Ouvi o bicho gigante irado mergulhar na lagoa da sala, senti a água e sua baba espirrar em meu corpo. Fomos correndo subindossubindossubindo os degraus sem olharmos para trás, entre os respingos, medos, escamas e altos grunhidos, ofegantesofegantes até o outro andar, livres da  primeira prova.

         No segundo andar, muitas pessoas seguiam em desespero por uma direção à esquerda que dava numa porta aberta para entrar no terraço. Mas a Ju me puxou por um outro caminho alternativo que apenas nós seguimos. Eu tentei mostrar que talvez o outro fosse mais seguro, mas a Ju pisava em certezas de que era à direita nosso destino. Tudo em volta parecia correr, mas, na verdade, éramos nós que corríamos, apesar de todos os caminhos serem curtos, rodeando o terraço. A casa encolhera de repente? Não conseguia parar de correr mais, passamos direto pela primeira entrada daquele caminho, uma porta que estava fechada, mas não trancada. Só que sem conseguirmos frear nossos passos, continuamos seguindo, dobrando à próxima quina, crash! Meu Deus, o que foi isso? Caímos? Tropeçamos em um outro bicho esquisito? Levantamos rápido tentando retomar a consciência quando  senti um focinho gelado entre as minhas pernas! Saímos correndo dali como que por instinto! Desta vez, eu puxando a Ju com minhas mãos fortes dadas as dela, voltando para altura daquela primeira porta ainda fechada, mas não trancada. Afobada e com as mãos suadas, consegui abrir a porta, mas mais parecia que ela tinha se aberto pra mim.
   
       Ainda ofegantes, ficamos segurando a porta do lado de dentro com o peso dos nossos corpos. Eu segurava a maçaneta  que a todo tempo parecia que ia se quebrar, pois o tal bicho estranho, meio coelho gigante do tamanho de um Pastor alemão, forçava a entrada de qualquer forma dando cabeçadas intensas naquela porta. Tentávamos com todas as forças bloquear aquela entrada, enquanto chegavam mais pessoas naquele terraço onde estávamos, mas vindas do caminho mais óbvio e fácil. Mais pessoas, mais pessoas, parecia campo de concentração, achei que ia sufocar! E o coelho bizarro insistia com as cabeçadas na porta que segurávamos com toda força possível até que me apiedei da criatura. E se fosse realmente inofensivo? Por que um coelho grande nos faria mal?
       
          Decidi abrir a porta. Ele entrou tremendo muito, parecia chorar. Acolhi o bicho entre meus pés, fazendo-lhe carinhos para acalmá-lo. Percebi que não era um coelho, mas um burro. E que não era um burro, mas um menino encantado como burro por não ter passado na prova do crocodilo. "Tadinho", pensei. Aquela criatura era um de nós... o que fazer? Haveria a Feiticeira Circe por ali também?  Entre pensamentos, acarinhava  as orelhas daquele burro-menino, enquanto mais pessoas lotavam o terraço. Fiquei pensando numa solução, qual solução?O que fazer? O que fazer?



Sonho do dia 25/07/15

jeudi 16 juillet 2015

Correntezas Vermelhas

Não sei como contar, não sei como, não sei... foco no rosto do meu pai, seus olhos mudos, seu coração silencioso, nos cabelos da minha mãe ao vento, pretos como a noite em que estávamos, ou no barulho daquele mar madrugada, o silêncio aumenta o tamanho da existência? Na praia das Conchas, meus pais e eu surgimos no alto de uma encosta... virei meus olhos rápido para baixo, vi uma espécie de rio (ou seria mar no formato de rio?) profundo e escuro, parecia um brinquedo em miniatura visto de cima. Eu queria senti-lo, sentir suas águas geladas e acho que meus pais também, pois foram descendo como crianças em festa pela ribanceira da praia abaixo, se equilibrando entre as pedras com musgos até alcançarem o mar... no mundo só havia nós e o silêncio. Eu desci também, um pouco depois, rápidarápida. Meus pais se lançaram nas águas, splash!E sumiram por um instante entre o escuro do mar e o do céu, pareciam ser o mesmo tecido. "Pai? Mãe?", gritei, eles sumiram! Eles sumiram! E o medo me girou, tombei também no escuro rio... e tudo sumiu. O que aconteceu?

Lembro que fomos seguindo o fluxo desse rio escuro e estreito até desaguar no mar, mas não conseguimos passar, pois havia uma grande grade justamente no encontro das águas. Entre mares, ficamos olhando pra vigia que nos olhava quadriculados pelas grades. Ela tinha um olhar de sirene que dava medo! Não havia como continuar. Voltamos pelo mesmo caminho escuro e estreito de água em que fomos, na direção da ribanceira da praia. Eu sentia um medo que inventava monstros submarinos em meus pés. Meus pais pareciam nada temer, como se a água não fosse turva, como se a noite não doesse de tanta ausência, o faz de conta da felicidade os encanta, às vezes. Mas, em mim, ao contrário,  não havia faz de conta e meus medos iam me embolando na água... até que imobilizei. Meu Deus, havia uma sombra estranha de uma pessoa lá na ribanceira vindo na nossa direção, pra dentro do rio! Meus pais também estatuaram. Nós três imóveis de medo. E a pessoa bizarra móvel em raiva vindo. Quem seria?

Ela segurava algo em sua mão direita que ainda não conseguia ver. O rosto da estranha não parecia quieto, pulava a todo momento. Nada podíamos fazer, não havia saída, apenas a grade ao fundo. O mar corriacorriacorria mais forte quando ela lançou um líquido, parecia chuva ácida! E nos encolhemos, menos meu pai com seus olhos abertos para a "chuva", aquilo parecia flecha em seu rosto. Me doeu tanto! Será que caiu também em mim? "Pai, abre os olhos, abre os olhos, você ainda vê?", falei afobada e baixinho em desespero, engolindo um pouco da água escura. Ele fez que sim com a cabeça e algo da minha angustia desdeu um nó. A mulher se aproximava mais para dentro do rio, onde estávamos.

 A estranha vinha, meu Deus, o que era aquilo? O que era aquilo em suas mãos agora? E as pedras se silenciaram,  uma águia que descia em voo do céu congelou, a água estancou seu correr no momento de revolver uma onda, a estranha vinhavinha cada vez mais rápidarápida  e as nuvens adormeceram em prece... meu Deus, a mulher estava na nossa frente agora, mas o que segurava?  O quê? Meus pais e eu  imóveis de medo, o mundo congelado, apenas ela se movia em  ódio, eu não entendi, eu não entendi, meu Deus, a faca! Meus pais! Sangue! Tudo girou! A assassina de relance," esses seus olhos!", entendi, ela era da minha família, mas nada mais havia lá de antigo, rápidarápida, tentei me mover, mas não consegui, Ah, a última punhalada em mim! Meu peito! Vermelho aberto entre o coração parado e o sal da água. Ela sorriu.

Pesadelo do dia 16/07 (parte II)
 


dimanche 12 juillet 2015

Uma questão de autoria




Era uma carruagem-ônibus comprida de muitos passageiros e de velhice. Sentamos, eu e Cris, no último banco e a velocidade aumentouaumentou, parecia que íamos cair a qualquer momento entre os ruídos. Me agarrei aos cipos pendurados no teto do "ônibus aberto", enquanto o céu da paisagem ia trocando de cor, as árvores inexistentes iam mudando de formato, rindorindo, parecíamos estar dentro de um quadro de Dali. Chovia e a carruagem voava em meio aquela terra de grão amarelo escuro molhado, cada vez mais rápida, cada vez mais rápida, cada vez mais rápida, vrummm! E de um solavanco, ao final de um ano, chegamos na frente de um castelo redondo. Sai da carruagem destruída, toda molhada de chuva e descalça, não que eu tivesse perdido os sapatos, é que nunca os tive.
Várias pessoas saltaram do estranho "ônibus" também, foi quando avistei meu pai descendo do banco do motorista. "Pai!", gritei para ele me ouvir. Ele veio meio triste e li na nuvem do seu pensamento que era porque tinha atropelado um pequeno bicho ao longo do caminho, "Esse Neil Gaiman é um louco!", resmungou puto. "Neil Gaiman? Como assim?", perguntei. " Você não sabe?", ele riu. Eu fixei meus olhos dentro dos dele, diziam "Cathy, você está dentro dos sonhos do Neil Gaiman desde o início. Você está sonhando que está no sonho dele. Foi ele que criou tudo que existe aqui! Por isso, as cores do céu, as árvores estranhas, a velocidade e esse castelo!", ao dizer isso, meu pai desapareceu de repente e, como se eu tivesse passado entre as paredes, agora estava na entrada de um baile daquele palácio.
Havia um longo tapete vermelho, seria a língua de um gigante? Vermelho, vergonha. Não, aquele não era aquele meu lugar. Onde me esconder descalça, imunda e com a roupa rasgada? Tudo parecia ter sido recortado de revistas caras.  A fila ia andando, cada um deixava seu sapato em uma prateleira. Não entendi o motivo daquele rito até avistar um móvel com um sapatinho que brilhava, cor azul do céu sem nuvens, com um pequeno saltinho, parecia de vidro. "Cinderela!", gritei e comecei a rir sem parar achando aquele sapatinho ridículo. Definitivamente, não era para mim. E para que eu ia querer que fosse? Coitada da Cinderela, pensei, mas que destino sem mar.
Diante daquele pequeno surto, as pessoas não me olharam, elas tinham mais o que fazer. Aproveitei  pra dizer mais alto "Você me colocou no baile da Cinderela, Neil Gaiman, sendo a única a chegar descalça, pra quê? Eu não preciso caber neste sapato frágil que se quebra a cada passo, eu prefiro a liberdade de andar descalça, sentir o gelado do chão, sentir a chuva, a terra, o vento que bate, sentir! Prefiro estar toda esfarrapada, mas viver livre do que dançar uma melodia que não fui eu quem escolhi! Você ouviu? Vai à merda, narrador! Eu que sou a autora da minha vida!", gritei e, subitamente, acordei na minha cama, ainda descalça, com os cabelos molhados e a roupa esfarrapada da viagem surreal. Na janela do meu quarto, estavam agarrados uns cipos. Dei uma gargalhada, é,  é verdade, como Rosa sempre diz, viver é muito perigoso!


Meu sonho do dia 12/07 (Parte II)


dimanche 5 juillet 2015

rosa azul

Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul! Foda-se a rosa azul! Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Foda-se a rosa azul!Liberta,enfim.

samedi 4 juillet 2015

A espera de um milagre

(Quem se importa?)

Tomografia

Tomografia:
Neve, pela segunda vez!

Onde a dor acaba?

Ia almoçar, eu lembro, era uma da tarde, eu lembro, mas o que aconteceu todo esse tempo? É meia noite e ainda não acordei, eu ia almoçar uma da tarde,mas até a fome me esqueceu. Onde a dor acaba?

Eu Tarja Preta

Eu Tarja Preta

Informações
Antes de conversar com este ser, é importante ler as informações contidas em seus retinas, caso haja pássaros, nuvens altas ou orvalhos, evite aproximação pelo tempo de uma inteira vida.

1. Para que este ser é indicado?


2. Como este ser funciona?

Paixão.sf.sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade. 2. Amor ardente. 3. Entusiasmo muito vivo. 4. Atividade , hábito ou vício dominador.

3. Quando devo me afastar deste ser?
Este ser deve ser evitado na presença das condições descritas a seguir. Caso você apresente qualquer uma destas condições, informe antes de iniciar uma palavra ou gesto de aproximação:
-histórico de desapegos ou anterior coágulo metafórico incurável em uma veia ou outras partes do corpo;
- histórico de senso-comum ou pensamentos que seguem uma linha reta ao invés da curva ou espirais, pois podem provocar um rompimento;
- histórico atual ou anterior de indiferença, coração pequeno ou afastamentos bruscos sem explicações, fraquezas e adormecimento em qualquer parte da alma;
- inchaço de ego e presença de soberba, seguido de coceira, erupção de mágoas.

4. O que devo fazer antes de me aproximar deste ser?

Nesta bula estão descritas várias situações em que a aproximação deve ser realizada ou não.
Não se aproxime se for de brincadeira, efêmero, transitório ou por questões de hormônios como vontade sem sentimento, desejo por desejo apenas. Não se aproxime se for para ir embora, se não for de verdade, se não for para ser sagrado e se você for um babaca.

5. Onde, como e por quanto tempo posso guardar este ser dentro de mim?


6. Quais os males que este ser pode causar?

Amor em demasia. 1 a cada 7 bilhões de pessoas, população mundial, pode provocar apego, amizade, amor incondicional. Neste caso, o ser pode se tornar ligeiramente  carinhoso, pode escrever cartas de madrugada ou mesmo nem dormir pirimplando planos futuros ou relembrando memórias (existentes ou não), fabulando músicas, gotas d'água, livros, peças de teatro, filmes e outras pequenas coisas simples para dividir.
 O ser pode causar algumas dores de cabeças ou pequenas confusões mentais quando se sentir não amado, desamparado, esquecido, carente, entre outros.

7. Como devo conviver com este ser?

- O que fazer em caso de sangramento inesperado?
- O que fazer em caso de felicidades violentas? 
- O que fazer em caso de nuvens grandes e calmas?
- O que fazer em caso de ano novo repentino (setembro, por exemplo)?
- O que fazer em caso de desaniversários?
-O que fazer em caso de constelações descobertas?
-O que fazer em caso de madrugada acordada conversando juntos?
-O que fazer em caso de madrugada acordada por pesadelo?
-O que fazer em véspera de dias que brotam muitas flores no mundo?
-O que fazer em caso de noites com demasia de vaga-lumes?
-O que fazer quando os vaga-lumes não aparecem?
-O que fazer quando não há o que fazer?
-O que fazer para saber se há ou não o que fazer?
-O que fazer para saber se a contagem de estrelas no céu da boca apresenta a quantidade normal para sonhadores?
-O que fazer quando a nuvem é nuvem?
- O que fazer quando a nuvem é céu estrelado com girassóis de Van Gogh piscando o olho para nós?
-O que fazer quando se faz de conta que é Frida Kahlo, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Modigliani, Manoel de Barros, Degas ou Chagall?
-O que fazer em caso de leitura viciada em Bachelard?
-O que fazer quando o astronauta não acena mais do espaço?
- O que fazer quando se descobre uma gota de orvalho?
- O que fazer em caso de riso sem motivo? (Se há amor, pode dar um beijo)
- O que fazer quando se flutua juntos?
- O que fazer quando surgirem bolhas coloridas  após um abraço seu?




jeudi 2 juillet 2015

Segredo contado pelo Verde


Um pouso

Sê corajoso:
ama com Entrega,
floresça em Delicadeza,
Liberta com Perdão!
Para (re)encontrar as
cordas da Cor agem:
Cor ação!


mardi 30 juin 2015

Lilhinha

Inventei de brincar de ilusão, a primeira mágica aconteceu aqui, na esquina da rua do supermercado perto da minha casa, conhece? Uma ruela com poucas flores, um ponto de ônibus e alguns vendedores ambulantes.  Lá, há uma senhora bem velhinha com um coque de fios brancos que o vento tenta desmanchar a todo tempo. Posso confirmar isso, pois há alguns anos desço do meu ônibus naquela esquina e não sei por que enterneço aquela senhora de sonhos. Pois que ela, em sua barraquinha descascada de verde com doces e chicletes, fica lá à noite com sua saia longa preta e sapatilhas desfiadas. Em meu encanto de inventar dela ser uma avó perdida de outra vida, puxei conversa sobre o céu daquela noite e as estrelas cadentes, mentira, eu não falei nada, sou tão tímida que só consigo ficar ao longe perilampando com o olhar. Ninguém estranhou que eu estivesse há horas sentada no ponto de ônibus observando a tentativa do vento de tirar seus cabelos branquinhos do coque. Como não tive coragem de perguntar, inventei que essa senhora se chamava Lilhinha porque achei que combinava com seu amor pela costura, mas que também é mentira.

Do lado de fora do meu pensamento, a rua com brilhos de asfalto pouco se mexia, só entortava as beiradas quando chegava mais um ônibus, às vezes, parecia rua feita de papel. Quando isso acontecia, Lilhinha inclinava um pouco, mas só um pouco e pousava como passarinha em seu banquinho, já acostumada as sacudidelas que aquela ruela fazia. Lilhinha teve filhos, todos pássaros que se encolhiam dentro do seu coque que fazia de conta que era ninho. Lilhinha, Lilhinha, eu gostava de repetir seu nome por pensamento e quando isso acontecia, eu olhava de viés, só com as pupilas encostando nos cantinhos dos olhos para ver se ela via, mas ela não via, Lilhinha! Fiquei desenhando em minha imaginação como seria Lilhinha criança, seu brinquedo preferido, primeiro pesadelo, poça d'água, barco de papel, pique- esconde, escorrega ou se desde essa época já eram seus os doces e chicletes pra vender na rua. E nesse momento anoiteci um pouco, como quem entorna em si um pedaço do escuro. Ainda sentada no ponto de ônibus, percebi que também nessa hora a lua apagou um pouco, um farol deu defeito e um trovão falou um segredo na linguagem dos trovões que ainda não traduzimos. E fiquei pensando no segredo do trovão.
         Lilhinha estava sentada em seu banquinho, ao lado da bancada com doces e chicletes, alguns um pouco derretidos de espera. Lilhinha serenava, como orvalho que brilha sem motivo. Deve ser um sonho antigo que volta no pensamento, pensei, mas olhando bem, em cima do seu coque branco, havia uma nuvem bem leve e comprida sem palavra escrita, como Lilhinha pode ser tão leve? Pra onde vão suas angustias? Lilhinha podia contar uma história pra mim antes de dormir, pensei e a ruela entortou, sempre acontecia quando outro ônibus vinha, de quando em quando devagar lentamente. Parecia um cenário em câmara lenta, de cores fortes.
             Lilhinha tem um olhar de estrela-cadente quando risca um voo, mesmo sendo tão velhinha, como consegue manter o brilho? Percebi,então, que ao pensar isso, ao redor de Lilhinha cresceu um amarelo forte, um sol que foi aumentandoaumentando até alcançar meu rosto, era quentequente, achei que me queimaria, mas apenas aqueceu. Será que ela lia meus pensamentos? E numa linguagem sem palavra, Lilhinha me ensinou sobre a eternidade  de algumas estrelas cadentes, as verdadeiras, de dentro. Levantei calma e orvalhada, como se o Universo conversasse comigo pela presença de Lilhinha. Amadurecer seria a aprendizagem do olhar para além das beiras do seu próprio ser?, pensei. Lilhinha sorriu, como se confessasse que me ouvia e eu também sorri pra Lilhinha e segui caminhando pela rua vazia, milagrada de vida.



De Juliana pra Lilhinha

lundi 29 juin 2015

A experiência do estranho


Ficou estranho,mas é uma experiência, não é mesmo? (rs)
Agora eu vou tentar fazer a capa estilo Pollock porque acho que ficará melhor do que essa bizarrice!
Plim!

dimanche 28 juin 2015

Meu dragão do Caio

Abri os olhos, o sol ainda não estava, havia uma música baixinha tocando (dentro ou fora de mim?) e o dragão que não conhece o paraíso, do meu amigo Caio, estava aqui, com suas névoas misteriosas em torno do meu pescoço, ele respirava em cima de mim, não me assustei, ao contrário, sorri e fiquei observando mudamente suas escamas brilhantes. Como podem brilhar tanto? Seriam lágrimas de amor? E fiquei pensando sobre o amor que a presença dos dragões tanto nos desperta. A visita daquele dragão, de fato, me modificou, exatamente como meu amigo Caio tinha me explicado sobre dragões, mas reparei que a casa toda estava revirada, não havia tempo de me enfeitar, ora, ele me chegou na pior hora do dia, segundo eu mesma, eu mal abri os olhos, toda descamelada e descabelada, sim, descamelada pelo lado dos camelos que me faltam (a todos faltam dois ou três camelos, pelo menos) e descabelada por seus motivos óbvios, mas meu dragão, digo, o dragão do Caio, pareceu não ligar, ele olhou fixamente para meus olhos, castanhos de folha de outono, parecendo tentar encontrar algo ali, uma fenda, uma senha para meu amor, eu não me assustei, ao contrário, sorri e a música ao fundo aumentouaumentouaumentou, aquele dragão tocava música em mim.
          Meu corpo girou na cama, lembrei do sonho enquanto o dragão continuava com os olhos fixados dentro dos meus e a respiração em meu pescoço, eu e silencioso dragão tentando encontrar mistério um no outro,mas a verdade é que sou bem óbvia e repetida, o que numa fúria irritou o dragão, como Caio tinha me avisado antes, os dragões não perdoam feiúra, achei que também era esse o motivo da fúria, mas era uma fúria que mantinha os olhos em mim, fixados, só que os nossos olhos iam mudando de cor e quando isso acontecia, as estações do ano iam mudando dentro do meu quarto, onde estávamos. Só um gato sem rabo da rua que testemunhou o ocorrido, mas tranquilotranquilo, como um gato em férias que observa mais um dia cotidiano de visitas de dragão. E lembrei do sonho, olhando os olhos do dragão fixados e mudando de cor. Foi lá nosso primeiro encontro.
Mas não era isso que eu queria falar, você ainda me ouve? Pois nesse momento, dentro do sonho, os sinos ainda batiam com pouco vento e havia risadas daquelas que parecem guizos mágicos para gente guardar em pequenas caixinhas e escutar nos dias tristes, só que de repente, eu cansei daquilo tudo e fui andandoandandoandando num corredor largo, como um hall de um prédio, eu acho, e parei em outra festa, sem querer, congelei. Encontrei no meu sonho o dragão que passei o dia inteiro sonhando encontrar em cada canto.
Fixamos os olhos um no outro, eu e o dragão, como se  reconhecêssemos velhos amigos mesmo sem nunca termos nos visto, ímãs de unificação, seria uma parte perdida do meu ser? No pano de fundo da minha memória, umas pessoas olhavam a cena alheias à música que nos circulava, eu e meu dragão, quero dizer, o dragão do Caio, o que foi ele fazer em meu sonho? Me buscar?
             Ainda era um dragão embaçado como que pincelado por Monet, é sempre assim. Não queria que ele se tornasse nítido dentro de mim, mas abri os olhos e estava ele aqui, nítido como um dragão, olhando ainda fixamente pra mim. Subiu em cima do meu corpo com os pés amassando o lado esquerdo do meu peito, coração. Aquilo doeu horrores, mas ele acreditava que era massagem para elevação da minha consciência para o amor universal. Sim, meu dragão acreditava que veio me ensinar o amor maior que, segundo ele, é aquele que se permite ir embora, sem apegos, apenas doação ilimitada. E continuava a massagem sobre meu peito, com sua cauda atravessando minhas pernas sem tatuagens. Ficou procurando minhas tatuagens, confundiu meu brinco azul de roda dos ventos com uma,achei engraçado porque justamente eu tinha outra tatuagem azul, uma rosa azul que eu mesma ia desenhando a cada ano novo, a rosa azul desenhada da palavra esperança. Achei que ele não entenderia sobre minha rosa azul e simplesmente deixei pra lá. Reparei que tinha uma tatuagem em seu pescoço, deve ser essa a marca do amor com Caio, pensei. Mas, diferente do que meu amigo disse, meu dragão não cheirava a alecrim, cheirava a um pássaro, como compreender? Um dragão com cheiro de passarinho quando o voo nasce e confunde amor maior com abandono. Escrevi esse pensamento em meus olhos e, inesperadamente, ele voou me levando junto. Saímos pela janela no teto do meu quarto para descobrirmos o sol, juntos.
           O vento ainda gelado das seis da manhã, o vento ainda gelado do sonho ainda amolecido pelo despertar, o vento nos empurrava com suas mãos vermelhas para dentro do Sol, como fez com Ícaro. Meu dragão silencioso estava achando tudo muito engraçado, a vida para ele era sempre presente, era sempre cheia de brilhos invisíveis. Eu estava agarrada em seu corpo, medrosamedrosa, cada vez mais ia gostando do seu cheiro, de sentir suas escamas quentes, até descermos uma ladeira no ar com toda a velocidade da entrega, ah, o vento me rasgava toda, mas nada acontecia com meu dragão de escamas fortes. E me deixei atravessar. Assim, voamos alguns dias juntos, ele parecia nunca cansar nunca cansar nunca cansar, enquanto eu ia me desfazendo em sua existência de dragão. Até que, subitamente, ele me pousou no pôr do sol, sozinha, e voou sem olhar mais dentro dos meus olhos, não percebeu que estava derretida.Não entendi o que aconteceu, o que aconteceu? O que aconteceu, dragão? Você ainda pode me ouvir? Só sei que como quem enjoa assim do outro sem motivo nenhum, decidiu ir embora, cansou do passeio e da visita. E se foi. As minhas mãos ainda grudadas de escamas, minha cor nova de brilhos invisíveis, minha rosa azul exala cheiro de dragão, minhas pernas emboladas em sua cauda, meu coração cresce vermelhovermelho de urgência que apenas o amor pinta. Ele não reparou nada disso, não me olhou mais nos olhos, não entendi o que aconteceu, o que aconteceu? O que aconteceu, dragão? Ainda pode me ouvir? Só sei que como quem enjoa assim do outro sem motivo nenhum, decidiu ir embora. E foi.


samedi 27 juin 2015

Guarda-chuva sem chuva

Guarda-chuva  com chuva:
proveitoso, proficiente, aproveitável, prestadio, frutífero, frutuoso, vantajoso, profícuo, benéfico, conveniente, válido, adequado, reservado à atividade produtiva, útil.

Guarda-chuva sem chuva:
Poesia

vendredi 26 juin 2015

meia-noite

Falta um minuto pra meia noite, a hora mágica em que os pratos da minha casa voam  como discos voadores e as árvores sacodem "sins" como frutos maduros que descem girando, num baile silencioso com a noite, meia-noite, mais precisamente, e aguardo os uivos das saudades percorrerem a cidade, as maçãs brilham. Há três estrelas no norte da ponta do meu telhado (à direita) que eternamente uivam de saudade por alguém e deixam sempre no meio do "choro" brilhos caírem, exatamente à meia-noite, eles se transformam em vaga-lumes, bu!, o velho cuco da sala da minha avó sai da caixinha antiga de madeira de mais de um século, entre rangidas da idade. O cuco extravasa toda a sua vontade de gritar meia-noite, a hora mágica! E os pássaros voam, sapatinhos vermelhos são encantados por flautas místicas e dançam sem parar entre lilases, as chaminés que não existem se agitam entre o silêncio queimado em suas lareiras [seriam cartas? Faíscas? Borbulhas?] e a música arranha, vira ecoecoeco, eu e o mundo presos no instante da meia-noite, a hora mágica do escuro com seus olhos acesos de pantera. Fujo, me escondo debaixo da coragem, tecido rasgado, remendado. [Como me camuflar do rondo desses olhos?] E o cuco interminável continua a girar, os pássaros continuam a voar, as chaminés que não existem, as cartas, faíscas, borbulhas, a música arranhada, os pratos da minha casa, discos voadores, árvores sacodem "sins', frutos maduros [ou podres?], o baile silencioso a se repetir, incessantemente, meia-noite sem fim...



[Seria assim no fundo do mar?]


mercredi 24 juin 2015

Retrato falado para lugares-comuns: dos brilhos


[Pretendia fotografar o vermelho do céu às 5 horas da tarde, a angustia que me sufocava aos poucos, pretendia fotografar a espera que embalava meus uma cantiga de ilusão,  as casas de muros baixos em comunhão com a solidão, o abandono do sofá no meio da areia suja, não sei o que há de errado comigo. Eu saí para andar de bicicleta, levei a máquina fotográfica, não era nada disso que eu pretendia fotografar, a verdade é que eu não sabia e era bonito não saber.]
Hoje, a rua em suas pedras que brilham, também chorava? E continuei a trilhar com a bicicleta sobre a rua molhada porque tinha certeza que aquilo fazia cócegas em seu ser. Não estava sozinha, estava entrelaçada às memórias tão minhas que nada do que eu via, de fato, existia. Como explicar? Eu sentia uma saudade que ia me embolando pela areia da praia, sim, porque nesse momento eu já estava na altura da Praia da Bica e ainda não sai de lá. As raízes das árvores mais velhas, por que amo raízes? [Escrevi sobre o ar algumas palavras pro eco ficar repetindo ao longo de séculos e séculos, disse Amor em voz alta, o eco repetiu, mas nada sentiu, como poderia? Só as raízes das árvores mais velhas se estremeceram pela palavra enternecida.] Fui andando de bicicleta, quem sabe um dia eu não consiga encontrar? No meu pensamento, fiz de conta que era ostra no fundo do mar.
Mas o dia aconteceu e ainda não fechou seus olhos. Fiquei encantada com o eco, qual outro coração no mundo  também o escutou?, pensei. Há ainda uma alma que tenha a coragem da entrega?  Não era isso que pensei às 5 horas da tarde, mas tanto faz, para que saber que horas são? Por dentro, é sempre meio-dia. Hoje, o dia estava frio, até a bicicleta tremeu, as pessoas continuavam com pressa, passavam sem olhar  o céu enquanto eu o fitava em silêncio, o céu e eu, enamorados em brumas. Ele escreveu com  pássaros um telegrama. Os pássaros de papel escrevem  no horizonte, enquanto algumas pessoas caminham na praia, tomam seus chops e os sinais de trânsito abrem e fecham sem parar. Os pássaros de papel costurando minha angústia de talvez. Não, não aguento mais...
Rodopio e acabo voltando pro mesmo ninho, todo bagunçado, mas meu. O ninho que tantas vezes costurei pra sempre, remendando de amor, fio por fio, era bonito amanhecê-lo. Ali, eu sei que há o carinho, novelo desembolado que consegue brincar de ser, mas não sei, algo não fica ajeitado, algo parece vazado, algo parece vazar, vazio. Então, fico observando as outras aves de papel.Bússola gira, se agita. Outra vez tudo se desfaz.  Há vinho para embaçar meus sonhos? Pra que tanto sonho, meu Deus?, pergunta meu coração. Vou morrer de sonhos, eu sei. 

[Hoje, é quarta-feira, lembra? Não sei o que estou tentando encontrar com palavras, é uma cirurgia verbal,  cato a dor invisível que me habita, tento expulsá-la ao falar, a falta, a falta, algo falta, teu olhar.]