jeudi 23 octobre 2014

Desabotoar-se

 Sinto um nó que não desata, bisbilhoto-me: botão aberto para pouso. Há um ponto que nunca pontuo. Descosturo-me de teus pássaros, desaprendo o violento voo.  À luz da imaginação, as goteiras respingam a memória de teu rosto. É você? "É você?", eco, sombra epifânica da ausência. Engulo ca(fé) à seco, vai passar, vai passar. É esse o risco de ser mar...

lundi 15 septembre 2014

nó

Lentamente, o céu descasca sobre meus pés, o mundo pontacabeçagira, meu umbigo explode em faíscas que compõem teu rosto, em faíscas que compõem o esgoto, em faíscas que compõem o não ser, e o ser fica a espera de, marcado de olfatos da memória... teu rosto reaparece, reaparece...
o relógio iluminado  esquecia dos ponteiros por alguns instantes, ela agora observa os pensamentos em dança incessante, de dentro. "Ele fazia de propósito! Buscava erros em seus gestos!", os pensamentos diziam, sacudia a cabeça, a menina, na tentativa breve de fazer com que eles se esvaíssem,mas voltavam como lumes  em meio a movediças nuvens...

samedi 6 septembre 2014

Poema se prova

poema deitado
na mesa cirúrgica
para análise
para prova
para morte (que vale dez!)

mardi 22 juillet 2014

Raízes



Quero deitar-me na certeza
dos teus olhos.

Quero deitar-me em tua boca,
abrir teus sonhos.

Quero ser um cheiro da memória
a acordar teu corpo na manhã do agora
cordas de sol  desafinam a espera
ergue teu beijo em meu corpo
flores que nunca foram nossas

A saia se agita nas mãos do vento
os fios se deitam entre azuis
Tuas palavras de silêncio apressam
aquilo que não sabemos dizer.






samedi 12 juillet 2014

Azulejando


Azulejando...

O beijo



O beijo...

Vestígios de um amor....



Vestígios de um amor...

Cavalos-marinhos...




Cavalos-marinhos...

"E o vento vai levando tudo embora..."

Choro, 
nem sei porque choro
apenas sinto!
Sinto como se fosse explodir
meu peito
vermelhos
 preciso sempre sempre sempre me abafar
Nunca posso apenas ser! Apenas sentir! Apenas sentir e explodir como meu coração pede para que seja! Entrega!
Esse silêncio ao meu redor...a solidão  não responde meu olhar
 os sonhos que lhe entrego....a olho como quem acredita que pode me abraçar,
mas seu abraço sufoca!
Mesmo assim, permaneço em seus braços...
e me desfaço,
mais uma vez!
Areia,
Grão,
Poeira,
Ilusão de ser!
Não consigo me adequar ao ritmo do mundo: eu sinto! 
E esse todo descompassa meu olhar ávido de cores! Ávido de cheiros, como Alberto Caeiro me ensinou... O meu olhar aprende a desinvenção dos sonhos que teço... para não sufocar:
sou Mar em busca de Pouso.






12 de julho

Na janela, minha pássara está inquieta, olhando de um lado pra outro, e não me conta o que é. Como eu queria abrir seus medos e enfeitá-los de sonhos calmos, enfeitá-los do meu afeto.



mercredi 25 juin 2014

Blogger Palavra para incorporar: percursos de escutas e (re)escritas




Este blogger é um espaço aberto para meus alunos como memória dos percursos de escutas e (re)escritas, tendo por intuito a publicação virtual das criações em sala de aula.



In: http://palavraparaincorporar.blogspot.com.br/









mardi 24 juin 2014

Minhas fotografias são mentiras

Minhas fotografias são mentiras. Cadê a gargalhada e o dente torto? Três ou quatro vaga-lumes no olho? Palavras espichadas espalhadas pelos cabelos? Cadê sua voz  sendo cosquinha no meu rosto? Cadê meus pássaros todos?

samedi 21 juin 2014

lundi 16 juin 2014

Teu nome

Teu nome:
 meu coração estreme-céu.




A construção

Os barulhos da obra (me) ferem,
mas a casa ergue.

Entre os andaimes de palavras,
o Martelo orquestra o verso.

Dentro da minha cabeça,
sinfonia de ruídos
acorda o poema
balde, areia, cimento
e as vozes dos operários,
poetas?

Disfarçados, constroem a casa
ao lado de minha janela,
o barulho do Martelo (me) aperta
o barulho do Martelo (me) segreda
sonhos bruscos de tinta e pedra.

O (des)concerto recomeça:
da janela, espio a fresta,
 parece um quadro de Tarsila,
corpos de mãos e mas nos rostos,
 os pés desnudos.

A fresta recorta um som espiã
desvia o olhar em busca de onde
o Martelo fia o cinza como atira
o verso "Mas teus olhos precoces",
"de medo", outra vez, se esconde.

Ouço as tentativas, da primeira a quarta,
o Martelo,entre os andaimes da casa,
fere outras palavras e "de medo" escapa.

É a última estrofe, o cimento gira,
na verdade, é a palavra cinza moída:
botão de estrela na barriga do trator.

Os ruídos (nos) tecidos da casa
perfuram o nunca das paredes
sonhadas; perfuram os pássaros
de água e o mar invade as frestas, só,
 a construção de areia  estreme-céu.

A palavra cinza escuta o estrondo:
o Martelo estala  "de medo",
o barulho cessa.

 A casa pronta de espera, declama,
 enfim, o último verso, porta aberta,
 "Mas teus olhos precoces de medo,
 não percebem.".

dimanche 15 juin 2014

Juramento: a palavra viva em sala de aula

Quero que nossas aulas nunca sejam aulas, mas sempre encontros, encontros vivos feitos de palavras com presença no sagrado, como minha irmã Bianka Barbosa diz. Palavras vivas para incorporar ao ser. Quero que sempre possamos compreender o momento  de escuta e de fala, com respeito e afeto com os olhos abertos de vida. Sobretudo, que eu seja uma professora comprometida com o ensino para a sensibilidade que possibilita a experiência da espiritualidade do ser. E  peço à espiritualidade para que sempre me conecte com as intuições certas sobre as vibrações das almas dos meus alunos, de maneira que eu possa levar a palavra precisa no momento aberto. Que cada aluno meu possa sentir essa vibração de afeto e também se dedique à construção deste percurso para modificar o mundo. Vocês ressignificam a minha existência! Percebo que eu realmente amo ser professora, amo meus alunos, quero e vou fazer o melhor curso que eu puder oferecer em nossos encontros, sem nunca faltar respeito, afeto e palavras sinceras abertas de vida. Peço para que  seja justa com as correções e não esqueça de ser eu mesma, não me anule em prol de um sistema mecânico e opressor. Mas  sempre recrie o que existe de maneira lúdica, para aprendermos sim,mas sendo felizes juntos. Assim seja. Este é o juramento.

vendredi 13 juin 2014

mas teus olhos precoces de medo




Daqui posso ver teus gestos
olha o céu dentro do aquário
dentro do ainda, água-viva

os peixes deliram cores
o ar rarefeito seduz a morte
o coral se quebra sem norte

a água-viva se lança ao mar
de encontro ao meu corpo, mudo
os corações se cegam.

o colorido pisca dentro do aquário
Mas teus olhos  precoces de medo
não  percebem

as luzes ascendem  meu peito
o aquário te entorna, devaneio
de águas, silenciosas asas.








Insônia

Insônia
quando o cansaço soca o sono.

mardi 3 juin 2014

A árvore florida





Tentativa de reconto do conto contado por minha mestra Ilana Pogrebinschi



Há muito tempo atrás, em um vilarejo, viviam duas famílias: uma muito pobre e outra muito rica.  A mãe da família muito rica tinha um casal. A mãe da família muito pobre tinha duas filhas e precisava trabalhar muito para poder sustentá-las.
Um dia, as irmãs inconformadas com o fato de sua mãe trabalhar tanto,  decidiram que tinham que fazer algo. E então a irmã mais nova teve uma ideia
-Irmã, se eu te contar um segredo, você promete que não contará a ninguém?
E a irmã mais velha prometeu que nada diria. Então, a irmã mais nova revelou:
- Eu posso me transformar em árvore!
- Como assim? - disse a irmã mais velha.
- Basta que você siga tudo o que eu te falar, com muito cuidado.
Pegue dois baldes com água limpa, disse a irmã mais nova, verta o primeiro sobre mim e eu me transformarei em árvore. No estado de ser árvore, suba sobre meu tronco, com muito cuidado sempre para não machucar nenhum galho ou folha e colha todas as flores azuis que puder. Quando acabar, verta o segundo balde de água limpa sobre mim que eu retornarei minha forma humana. 

A irmã mais velha ficou empolgada com a ideia, concordou prometendo seguir passo por passo e tomar muito cuidado.Assim foi feito.  Quando a irmã mais nova retornou a sua forma humana, elas tinham flores e mais flores azuis. Foram até o mercado vender as flores para ajudar a sua mãe que tanto trabalhava.

- Flores! Quem quer flores? Flores! Quem quer flores azuis?


A mãe da família rica que passava por ali  com sua filha decidiu levar algumas flores azuis para sua casa, pois estavam muito bonitas e vistosas. E as levou para casa, arrumando-as em sua sala.

Quando o irmão da família rica encontrou as flores azuis, não conseguia parar de olhá-las, fascinado, hipnotizado por tal azul, pela vibração misteriosa que emanava daquelas flores. Ele não conseguia parar de pensar nas flores, seu pensamento era todo desejo das flores azuis. De tal maneira que foi perguntar a mãe onde tinha encontrado aquelas flores. A mãe contou que foi no mercado, de manhã, comprou de duas irmãs.
No dia seguinte, o irmão foi até o mercado, obstinado.
 Encontrou as irmãs e decidiu levar todas as flores azuis que vendiam. As irmãs ficaram muito felizes e voltaram para casa com o dinheiro das economias para ajudar a sua mãe.

 Mas o rapaz estava tão fascinado pelas flores que ele precisava conhecer sua árvore. Então, seguiu as meninas no seu caminho de volta para casa, mas o caminho era tão longo que, quando chegou até a casa das irmãs, adormeceu no jardim.


Ao amanhecer, o rapaz não foi notado pelas irmãs, talvez, por estar atrás de alguns arbustos e, assim escondido, pode descobrir a transformação da irmã mais nova em árvore das flores azuis.


 Voltou para casa apaixonado, decidido a se casar com ela. Contou para sua mãe que, por nunca lhe negar nada, concordou e foi conversar com a família da menina. Marcaram já o casamento que aconteceria, em breve, na casa da família rica. Assim foi feito.


Na noite de nupcias, o rapaz fez um pedido íntimo:

-Esposa... será que você poderia se transformar em árvore para mim?

A menina ficou muito assustada, ninguém além de sua irmã mais velha sabia de seu segredo! Mas, olhou dentro dos olhos do marido e  confiou nos seus sentimentos, concedendo-lhe seu pedido. Assim, explicou passo por passo tudo o que o marido deveria fazer:

- Vá até o rio e pegue dois baldes de água limpa. Verta o primeiro sobre meu corpo e  me transformarei em árvore. Com muito cuidado para não rasgar nenhuma folha, não machucar nenhum galho ou fruto, você poderá subir sobre mim. Depois, verta o segundo balde de água sobre meu corpo que eu retornarei a minha forma humana.

Mas o marido estava tão mas tão extasiado que não prestou atenção em nada que a esposa falava. Então, verteu o primeiro balde sobre a esposa e se deparou com aquela árvore imensa e frondosa de flores azuis! Ah, ele ficou enebriado, e saiu subindo pela árvore, se deitando por todos os galhos, provando de todas as frutas, arrancando suas flores, em êxtase! Como era linda aquela árvore! Como eram azuis as suas flores!  E foi se  jogando entre sua copa, de maneira que quando desceu da árvore, reparou que havia destruído seus galhos, suas folhas, seus frutos. E verteu o segundo balde de água fria para que sua esposa retornasse a forma humana...


E então, ele viu sua esposa sem os pés, sem as mãos e sem poder falar.

Diante daquele horror, ele correu, correu, correu, incessantemente, para dentro de uma floresta, até encontrar uma pedra. Lá,  ficou sentado com os olhos fixos para o chão, pensando no que havia feito. E o tempo foi passando, sua barba cresceu, cresceu, cresceu até tocar o chão. Então, ele decidiu que já estava pronto para voltar e encarar o que havia feito.


Foi conversar com a irmã mais velha sobre o que aconteceu e perguntar se ela sabia o que eles poderiam fazer para consertar tudo isso. A irmã mais velha disse que não sabia, mas que eles podiam tentar.


 Então, foram até a casa onde estava a irmã mais nova, ainda deitada na cama, mutilada da mesma maneira como na noite de nupciais, como se o tempo não houvesse passado para ela. A irmã mais velha disse para o marido da irmã mais nova:


- eu vou verter o balde dágua sobre minha irmã e você subirá com muito cuidado , com muito zelo sobre sua copa e consertará cada folha, cada galho, cada fruto... e depois, verterei o segundo balde de água para que ela retorne a sua forma humana e veremos o que acontecerá.


Assim foi feito. 


Assim que a esposa do rapaz tornou sua forma de árvore, com todo o cuidado e amor que sentia, ele foi consertando cada parte dela, demoradamente, como quem soubesse agora do quão preciosa ela era para ele. Quando terminou, a irmã mais velha da menina verteu o segundo balde de água e ao retornar a forma humana, ela estava novamente perfeita.


Com lágrimas nos olhos, a esposa disse para o marido:


-Confortai-me com flores,

fortalecei-me com frutos
porque eu desfaleço de amor!

Emocionados e em silêncio, os dois se abraçaram  na certeza daquele amor.





(Imagem de autor desconhecido)

lundi 26 mai 2014

Luz

Luz
amarelo feito de afeto

ossos antigos de palavras

No ventre da noite,
adormeço.

Ossos antigos de palavras
olham
não entre, caminho, teu.

Tocam sinos, sós
o azul abre meus olhos

Cortinas que não existem,
enfeitadas de ausência,
ventam.

Mas meus fios,
minhas cordas,
permanecem imóveis


Teu poente em meus lábios
me afunda em pássaros

mas "o céu é grande!",
você diz.

O silêncio sangra
azul.






Palavras e desenho de uma noite de maio adormecido.

mercredi 21 mai 2014

curta-metragem

Na gaiola, um pássaro
Do lado de fora, o voo
agitado, outro pássaro
apaixonado
de mesmo colorido
Nos olhos dos dois:
encontro impossível.

lundi 5 mai 2014

Vaga-lume

Estou olhando a palavra vaga-lume bem diante do meu nariz
É meio-dia e tenho certeza que essa palavra está bem aqui
no nariz que também é dentro do peito, de acordo com a última pesquisa cientifica de uma universidade cujo nome já esqueci, ah, a universidade dos javalis
meu vaga-lume riu
eles são assim, não, me corrigiu, disse que apenas ele era assim, fiquei mais feliz
Estamos nos olhando invisíveis, olhar palavra nem sempre é fácil, ainda mais uma que está no espaço diante do seu rosto, entre os óculos e um desgosto
sim, meu vaga-lume sabe aquilo que não preciso dizer

Os que estão à minha volta aqui no trabalho, luz vaga, parecem mais  fotografia, imóveis na minha vista, só o vaga-lume existe, a palavra que se equilibra na ponta do meu nariz
E assim vou esquecendo do teu nome repetido em giros de dentro.

Vaga-lume, quando você voar, me leva contigo?

Veredas de fim

Há um barco
nas veredas de ti
dentro de mim
a espiar meu olhar
meus serás
nossas águas
agora separadas
o barco balança
à dúvida nos lança
mas firme escoro
suas fronteiras:
ancoras de fim.

samedi 3 mai 2014

presente

"Ah, se eu pudesse viver
no instante presente de ser
sentiria a água escorrer
na pele a bater: você!"

samedi 12 avril 2014

Ferrugem

Querida bicicleta,
é difícil andar por esses cantos ao teu lado como antes com esse sapato de salto. Na verdade, está difícil mesmo andar por ai, visto roupas que não dizem nada sobre mim. Aquela história nossa do vento para o verde vir por dentro, aquela história do mar cansado de azul ou do navio escondido por séculos e séculos bem na beirada da orla da praia suja ,  a única  com sofá flutuando, com garça sentada e tudo. Nós e as garças andando sobre as águas, você lembra?
Sinto saudades  das andanças de chuva com lama mas sem drama,  era bonito descobrir. Hoje, te revi um pouco enferrujada, essa cor que o tempo tanto gosta não se sabe o porquê, mas você me fez entender a ferrugem, coisa feita para ser encantada. Por isso,  estou ferrugem de também, memória que você prometeu pra mim se um dia esquecesse de quem fui.



jeudi 10 avril 2014

Amor,


faz tempo que não te escrevo. Ainda lembro das nossas antigas e longas cartas...hoje,serei breve.  Preciso dizer: teu beijo amanheceu meu desejo, mais uma vez.





mercredi 5 mars 2014

À Camille Claudel




À noite,
violentos vermelhos
sonham...

(Rodin!)

o devaneio dança
a lança aponta
o próprio peito

(Rodin!)

o mar invade a sala
mármore-lava
mneumónica

(Rodin!)

a espera trágica
a pedra prepara
em tuas retinas:

Rodin!


lundi 3 mars 2014

A gota d'água desaba teu rosto na fotografia

 Na vida rasgada do outro lado que nunca virava de si para o mundo, morava uma batucada que, às vezes,  lembrava de ser. E pedia pôr do sol. Ver o poente era como um filme da história deles,  metafórico. Ela continuava bamba pelo fio da estrada apagado pela luz. E  a batucada logo rebentava outra vez. Mas o barulho cansado de tanto talvez, um dia, se desfez no corpo do silêncio.

[Tocou o despertador, vários palhaços a minha volta me olhavam, queriam me dizer uma palavra feita de silêncio, mas que brilhava. Apertei o nariz amarelo do primeiro que tentou me levantar do sono e me virei e revirei na cama, no sonho sonhei que vários palhaços me acordavam com tambor e acordeão, apertei o nariz azul do primeiro que tentou me levantar do sono e me virei e revirei na cama, no sonho sonhei que vários palhaços tentaram me acordar buzinando em seus triciclos  e  eu sonâmbula abri os olhos bem forte, daquela maneira que só podemos abrir em sonhos, e desequilibrando meu coração em cima da cabeça, em cima da saudade, em cima do sorriso, com eles parti...]



solo para Ícaro


solo para Ícaro

fios


fios,
turvos
rios

Escafandrista

em tua cidade submersa

dimanche 23 février 2014

brancos




os brancos entre sua boca
ainda estavam lá
os brancos entre sua boca
Pareciam se espalhar...
como uma doença


os olhos abertos de ausências...


vendredi 24 janvier 2014

órbita

os aeroportos sabem ,
as formigas também,
Encontrei o alguém
(do Sonho)
as palavras embolaram entre meus medos,
 mas ele sorriu, não correu de desespero,
a espera estalou dentro dos sonhos
o querer que eu seja dele,
até os besouros sabiam,
naquele dia,
o amor se abria...




anestesia

anestesia
a antiga agonia,
esfria.

a razão costura
os fios retos
entre teus restos




(quem serei eu ao despertar do outro dia?)

jeudi 23 janvier 2014

Caos



[Teu dedo me perfurou,
girou azuis...]



Talvez, você não saiba
[a porra do caos!]
o teu abrir em mim,
machucou

Dormente no ainda,
petrificada da certeza
do Nunca

a certeza silenciada,
violenta e cega,
[nos] seca.

sal


o corpo acorda mineral
o sonho se embrutece
na dureza do sal.



certeza


a gota d'água desaba teu rosto na fotografia.


desvio



o amor esticou a paciência
não era ciência,
Bergson,
razão,
talvez, você não compreenda


 espio meus tortos,
tanta curva e arrepio
não conseguiria caber
num coração tão medido,


o caminho se desvia,
meus vermelhos riscam
outros sonhos longínquos,
despida de ti,
sigo.






águo

O escuro encosta
líquido,
(me) entorna.

dimanche 12 janvier 2014

Poeira


Entre os cílios que se abrem,lentamente, pequenos botões amarelos, múltiplos sóis a me amanhecer. Como faria com tanta fagulha de vida a espetar a alma, abrir cada mágoa a ser perdão? Tuas palavras me giravam em luz, tuas palavras de amor espalhadas pela cidade, tocavam uma melodia que desabrochava o chão.

[Por muito tempo busquei um quê de vento no girassol, busquei o girar no girassol, o sol no girassol. Hoje, quero o girassol no girassol, a anti-metáfora, o mundo simples.]

vendredi 3 janvier 2014

Cartas guardadas


Desculpa "colocar uma expressão de infinito", como diria o Van Gogh, na nossa história. Você sabe que sou sonhadora e desato amarras que prendam meu corpo na matéria, flutuo sobre o que não existe, com as janelas invadidas de pássaros, teus. Eu queria gostar menos de você, mas demoro, descobri que também sou paquidérmica! Só que para deixar de amar pessoas, será isso possível? não, o que deve acontecer é como alquimia, me misturo de outras ruas, outros passos, outras nuvens e os teus sons abafados pelas invenções de outros sonhos, podem assim desafinar dentro de minhas cordas, só que ainda estão lá, mesmo desafinados, ainda me tocam. E se é tão difícil, para que esquecer? as águas, ainda que, às vezes, violentas, me revigoram, no sentimento que pulsa dessas águas ainda agitadas (mas verdadeiras), consigo me ver pedaço por pedaço espalhada na espuma e, quando me abraça com alguma palavra de carinho,as águas,enfim, se acalmam e me vejo inteira...



[Este é o primeiro dia que não nos falamos depois de te encontrar dentro de mim, fecho os cílios que desaguam, os ventos se dobram em infinitos véus que te cubro, não quero mais a nitidez do teu corpo na memória, quero Lethes, afundar nas águas do esquecimento. Busquei os alicerces do amor espiritual e da doação que são verdadeiros, mas, ao final do dia, minha solidão encara tua saudade e a certeza que eu sabia que seria assim.]



mercredi 11 décembre 2013

samedi 12 octobre 2013

passarinho me contou...

Na janela do meu quarto,
cantando uma ópera segundo as formigas
(olhando a partitura escrita com grãos de açúcar)


Submarino

A entrega ao afeto, para ser azul de talvez num mundo relojoeiro, a luz do sol ainda cáustica, manto de amor que se doa para que se possa sentir em profundidade, os cílios aguam da falta que não se dissolve. Meus pés vão azulejando, des-ser, a angústia cubista na iminência de, enxergo teus riscos em meus ocos, como são demorados e pesados, tocam aquilo que nunca pude ouvir. A parte secreta do branco, pupilas no escuro dizem do tempo para Ser. Os sonhos aflingem...



samedi 28 septembre 2013

Roçou a barba como quem esconde a dúvida
no meio do queixo.

O sonho dos objetos


No canto da memória,
Duas crianças brincam
de isopor que brota do cabelo
dedos,
olhos,
joelhos,
corpo inteiro!
De tal maneira que se fez frio...

Nesse momento, riram,riram,riram...
inclusive o isopor com seus infinitos dentes de sal.

Nunca imaginamos como risada de isopor era estridente,
até as paredes se espreguiçaram, foram sol
A Felicidade alarga mesmo.

Dentes de sal nas crianças de tinta...
caindo
serenos
flocos de silêncios
frios
frios

Algo se riscou dentro daquela frágil pele...


Sim,os objetos sonham!
As crianças me fizeram descobrir:
O sonho do isopor era ser neve.





jeudi 15 août 2013

Des-ser


o estalar dos ossos
contra o muro vivo
 água aberta

Ressaca
estatuados olhos
avenidas e semáforos
de pressa

Des-ser...






jeudi 18 juillet 2013

dimanche 14 juillet 2013

caixa de entrada

Entrar numa palavra forte
é como entrar num rio forte.
Te abre, deforma, arrasta
para os estranhos quandos
sonhados por fortes águas...


As propriedades do tecido transparente...

Quando as árvores, daqui de casa,
se transparenciaram
(uma estação nova, ainda não descoberta pelos cientistas)
ficaram mais fortes, aos meus olhos, do que antes.

Era impossível entrar em casa,
sem esbarrar em raízes,
sem ouvir suas folhas...

Toda de tecido transparente
se estendia
por meu quarto
por meus quartos, os de dentro
uns que você passeia, as vezes,
em palavras, aqui, dentro dessa estranha máquina...


De tecido transparente, o poema
(silenciado)
também se espalha
por cima da tinta das outras palavras...

Paixão

Risco de traço súbito,
frágil vitral a romper na travessia das profundas águas...

vendredi 5 juillet 2013

A infância do Traço





I.                    Os delírios do desenho- palavra: mergulhados no esboço daquele rio...


“Porque o desenho é, por natureza, um fato aberto. Se é certo que objetivamente ele é também um fenômeno material, ele o é apenas como uma palavra escrita.”
ANDRADE, Mário, Do desenho[1]



               Pensar a infância do traço nos lança, entre águas e sonhos, num movimento de compreensão do caráter antiplástico do desenho, como Mário de Andrade nos aponta. Para tanto, surge a comparação com a palavra, tanto no que se refere à materialidade do significante, quanto ao que se refere à abertura plurissignificativa semântica. Neste sentido, Manoel de Barros nos diz da infância da palavra. Na lógica desta desaprendizagem poética do mundo tal qual um enunciado racional e estático: “O sol tem três letras/ O inseto é maior./Porque o inseto tem seis letras e o sol tem três./ Logo o inseto é maior.” (BARROS, Manoel de [2]). A palavra “inseto” compreendida pelo significante se torna maior que a palavra “sol”, afinal, possui seis letras, enquanto sol apenas três. Desta forma, nestes versos, a palavra, numa das possíveis leituras, esvaziada de seu sentido semântico, inaugura um ‘olhar fontana’, esse olhar de fonte que Manoel também nos conta. Mas sabemos que, no que se refere ao caráter semântico, a palavra ‘sol’, assim como ‘inseto’, quando escritas no papel, ultrapassam sua materialidade física, queimam e zumbem, respectivamente, no devaneio do sonhador que as lê. Da mesma maneira, o desenho, assim como a palavra, também irrompe para além de suas bordas físicas, o traço de um rio flui para fora do papel, molha os dedos do sonhador que o observa e deságua na circulação dos corpos, numa redondeza do ser do homem e do ser do mundo, como diz Bachelard [3]. Para além de possíveis dicotomias, a infância do desenho e da palavra nos possibilita experienciar o encontro, a dialética entre o significante e significado,  partes do mesmo ser. De maneira análoga, podemos pensar o diálogo entre corpo-alma, poema- poesia, papel-desenho, entre outros.

“A água corria pelos seus pés agora descalços, rosnando entre seus dedos, escapulindo clara clara como um bicho transparente. Transparente e vivo...”
LISPECTOR, Clarice, Perto do Coração Selvagem  [4]

               Ainda mergulhados no esboço daquele rio, como sonhadores que somos, compreendemos que as águas dos desenhos-palavras são incessantes fluxos de morte-vida, rio de Heráclito. Este bicho transparente e vivo, como diz Clarice, manifesta, especialmente nas linguagens artísticas, o encontro entre a imensidão íntima do ser do homem e a infinitude do ser do mundo. Neste movimento de criação, as águas dos artistas somente alcançam para além das paredes do espectador-leitor, se escapulirem da sua verdade. Afinal, como Alberto Manguel, no seu livro Lendo imagens, nos diz “...as imagens, assim como palavras, são a matéria de que somos feitos.” [5]. É nesse sentido que a infância do traço liberta o criador para além do estigma do desenho realista ― de maneira geral, eleito como paradigma da sabedoria de desenhar ― e nos lança nas suas águas profundas e poéticas. Para além de dicotomias de julgamentos como desenhos ‘belos’ e ‘feios’, as águas profundas do sonhador-artista, expressas através da arte, nos deságuam na descoberta do mundo. Apenas imersos neste espaço do espanto inaugural, os traços sonham.








II.                Dentro da casa que vive no sonho, abro a janela...


“Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano)[6]:
A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
(...)
O olho vê , a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.
Isto seja:
Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo.
Fazer noiva camponesa voar – como em Chagall.”
(BARROS, Manoel de )  [7]





“Vermelhos secos”, sépia, conté-branco e aquarela sob papel jornal, processo de ilustração feita a partir da observação de modelos vivos, na aula de Desenho I, da professora Marina de Menezes.






                    
 “As janelas que não existem invadidas de pássaros, teus.” , sépia, conte-branco e aquarela sob papel jornal, processo de ilustração verbo-visual proposto na aula de Desenho I, da professora Marina de Menezes.



Tinha conversado com a minha Professora Marina de Menezes na tarde que retomei essas propostas de ilustração. Não sei por qual motivo me vi tentando encontrar a tal expressão reta que não sonha, como Manoel em seus versos nos conta.  Tarefa que tornava o esboço do rio, um objeto de observação, apenas. Não há problema na observação, é parte importante do processo da criação. Mas não se pode finalizar um desenho (se é que se pode dizer que existem desenhos finalizados...) sem o criador atravessar suas águas profundas e deixá-las, de alguma maneira, respingar em seus traços. Em busca dos traços que sonham, incentivados pela Marina e Manoel, retomei, sem medos, os esboços das propostas.
“As janelas que não existem invadidas de pássaros, teus.”, tenta ir de encontro a uma proposta de criação verbo-visual. Nas minhas águas, os vermelhos simbolizam os pássaros que invadem as nossas janelas que não existem, sejam estas o coração, os sentimentos, entre outras possibilidades. O embaçado corpo da figura feminina treme entre palavras, como num sonho. Numa das possíveis leituras, o seu coração se junta ao traço simples que acompanha seu braço e quadril. Assim, no devaneio do sonhador, forma a possibilidade esboçada de um outro corpo a invadir, subitamente, a dançarina, como os pássaros.
 “Vermelhos secos” me emocionou antes de existir no papel, pelo simples gestos de amor entre os corpos dos modelos vivos, algo se moveu dentro de mim. O esboço rápido de 7 minutos foi um registro deste gesto de amor. Quando escolhi esse desenho para retomar o processo de criação, esse sentimento irrompeu meu olhar, um história se criou entre os dois. No meu sonho, dentro do desenho, os amantes conversam silêncios brancos, enquanto os vermelhos secos queimam seus corpos...

“Tudo isso só existia em sua imaginação; mas bastava para que essas pequenas posses quiméricas adquirissem realidade aos seus olhos.”
 BACHELARD, Gaston,  A poética do espaço [8]






Referências bibliográficas



ANDRADE, Mário, Do desenho, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1984

BACHELARD, Gaston, A poética do Espaço, Ed. Martins Fontes, 2ªed., São Paulo, 2008

BARROS, Manoel de, Histórias da unha do dedão do pé do fim do mundo in http://www.youtube.com/watch?v=a-HDwM3jebY (acessado em 04/07/2013)

BARROS, Manoel de, trecho do poema As lições de R.Q., Livro sobre Nada, Ed. Record, 1996

DERDYK, Edith, Formas de pensar o desenho, Ed. Scipione, São Paulo, 2004.

LISPECTOR, Clarice, Perto do Coração Selvagem, Ed. Francisco Alves, 14ª ed., Rio de Janeiro, 1990

MANGUEL, Alberto, Lendo imagens, Companhia das Letras, 6ª reimpressão, São Paulo, 2011











[1] ANDRADE, Mário, Do desenho, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1984, pág. 66

[2] BARROS, Manoel de,  vídeo- poético Histórias da unha do dedão do pé do fim do mundo

[3] BACHELARD, Gaston, A poética do Espaço, Ed. Martins Fontes, 2ªed., São Paulo, 2008, págs. 235-242
[4] LISPECTOR, Clarice, Perto do Coração Selvagem, Ed. Francisco Alves, 14ª ed., Rio de Janeiro, 1990, pág. 48
[5] MANGUEL, Alberto, Lendo imagens, Companhia das Letras, 6ª reimpressão, São Paulo, 2011, pág.21

[6] “Nota: Um tempo antes de conhecer Picasso, eu tinha visto na aldeia boliviana de Chiquitos, perto de Corumbá, uma pintura meio primitiva de Rômulo Quiroga. Era um artista iluminado e um ser obscuro. Ele mesmo inventava as suas tintas. Trazia dos cerrados: seiva de casca de angico (era seu vermelho); clados de lagartas (era o seu verde); polpa de jatobá maduro (era o seu amarelo). Usava pocas de piranha derretidas para dar liga aos seus pigmentos. Pintava sobre sacos de aniagem. Mostrou-me um ancião de cara verde que havia pintado. Eu disse: mas verde não é a cor da esperança? Como pode estar no rosto de ancião? A minha cor é psíquica – ele disse. E as formas incorporantes. Lembrei que Picasso depois de ver as formas bisônticas na África, rompeu com as formas naturais, com os efeitos de luz natural, com os conceitos de espaço e de perspectiva, etc etc. E depois quebrou planos, ao lado de Braque, propôs a simultaneidade das visões, a cor psíquica e as formas incorporantes. Agora penso em Rômulo Quiroga. Ele foi apenas e só uma paz na terra. Mas eu vi latejar rudemente nos seus traços milagres de Klee. Salvo não seja.” (BARROS, Manoel de, trecho do poema As lições de R.Q., Livro sobre Nada, Ed. Record, 1996, pág. 74)
[7] BARROS, Manoel de, trecho do poema As lições de R.Q., Livro sobre Nada, Ed. Record, 1996, pág. 75



[8] BACHELARD, Gaston, A poética do Espaço, Ed. Martins Fontes, 2ªed., São Paulo, 2008, pág. 75