dimanche 13 mai 2018

Estetoscópio entre nós

Das paisagens inesquecíveis,
não de nuvem,
não de montanha,
não de verão às 18 horas, hora da chuva forte que arranca o barulho do mundo e o dobra,
penso no teu casaco verde de zíper com teu cheiro
guardado nele
quase tudo parece o não parecer,
pois já é,
bater do coração,
ritmo,
tum-tum,tum-tum, tum-tum,
você ri da onomatopeia da infância,
mas é nessa paisagem do sim que te sinto
estestoscópio, estetóscópio,
dessas palavras grandes que falo sílaba a sílaba
como quem come um doce pequeno, brigadeiro com
granulado,
estetoscopio entre nós,
ouço, ou melhor, vejo o tempo,
com suas mil miragens, fantasmas do presente,
único tempo,
move-se um ser nosso na imaginação
tum-tum, tum-tum, tum-tum,
como dizer o que o coração quer dizer?
tum-tum-tum-tum-tum-tum
Nas dobras do teu casaco verde de zíper,
me abraço, na noite que é tua ausência.
Todas as cartas de amor são ridículas.
Eu também acho. Mas você me faz sempre escrevê-las. Parece inevitável
É tempo de mangas.
Lembro daquela vez: uma das mangueiras
não deu manga,
na ausência da irmã cortada
a ausência se dilatou por toda grama,
raiz a raiz.
Acredito nas raízes circulares de afeto,
fecundam a terra, penetrando-a,
cardumes, constelações também,
sendo a terra esse magma luminoso do nascer.
Depois, carregou de mangas azuis
uma fruta azeda, apesar de não ter tido coragem
de provar da tristeza daquela mangueira.

Das paisagens inesqueciveis
teu casaco verde de zíper com teu cheiro que
é você vivo, inteiro na memória,
Tenho medo dos frutos azuis,
Mas é tempo de mangas outra vez
e nunca a mesma vez.
Cintilo como feixe luminoso,
objeto voador desconhecido.
É tempo de mangas doces
e hoje (que é sempre)
você está comigo.