vendredi 25 décembre 2015

Anexo 2

Querido R,
enfeitei a árvore de natal como você pediu, deixei uma estrela cadente na ponta, daquela que desiste de cair e faz de conta que é concha no fundo do mar. Seu cartão chegou pela manhã, num envelope amassado de vermelho, tremia um pouco olhando assim pelo sol do meio dia na caixinha de correio. Pisquei algumas vezes para ser certeza, o barulho do rasgo, carta aberta no meu corpo. Fiquei ouvindo sua voz enquanto lia, mesmerizada. Achei bonito como você tosse entre os períodos que começam com letras minúsculas e quando sussurra a palavra cabum, logo cabum que parece feita para explodir. Dei aquela minha gargalhada alta, você pode ouvir? Enfeitei com as suas palavras as janelas, cortinas e a mesa, adocicando algumas frutas prestes a mofar. Hoje à tarde, pintei um anjo com nuveasas, coloquei teu retrato para secar, enquanto seu pedido me rodagiganteava.
Quando você vai voltar?
J.

jeudi 12 novembre 2015

Anexo 1_ Fotografia pia da cozinha

Anexo 1_Fotografia pia da cozinha

Querido R.,
não sei como começar essa carta, mas a escrevo como quem coloca as palavras para secar,o azul seca, a espera seca, mas molho palavras no que me resta do teu copo de café, ou "de mate", como você diria. É, eu sempre troco isso,você lembra? Essa foto, R., guarda a tua  ausência e a história da minha espera em pratos limpos brancos,um azul pousado num bule estranho, uma louça que pesa, uma pia retrato do silêncio, vê?

Tempo





(Texto escrito na atividade proposta na oficina de Fotografia e Narrativa,  ministrado pela professora Cris Miranda - CAp, no Encontro de Literatura Infantil e Juvenil 2015, UFRJ)



mardi 3 novembre 2015

Novembro

Novembro olhos recém-abertos
me toma pelos braços a dançar, 
eu rio tanto tonta pelos cantos
como quem nunca antes a amar,
mar selvagem a invadir sem medo:
ventando dentro de mim, Novembro!
ventando dentro de ti, meu cheiro!

Mas no teu piscar, eu parto,
como se você tivesse me pintado
sonho
[sonho sozinho é ilusão, meu tempo!]

Num bilhete, escrevo:
Novembro,
não quis te magoar,
mas, antes de ti, aprendi a  ir,
adeus.

samedi 31 octobre 2015

Palavrar a brincar

Palavras que sonham, 
de trem,  a alguém, 
gota d´ água, 
demármore,
palavras pedras,
cuspidas,
mastigadas,
 a quem?
palavra demorada,
areia derramada,
palavra queimada, ai!

Palavra lá a apontar,
crescer, atirar, 
acariciar a 
palavra horizonte,
palavra embrulhada 
presente, azul,
de tão, de vão, arpão, 
dequem?, 
palavra sim, plim! 
e não,
palavrão!

Palavra com memórias,
novelo de histórias,
baile de máscaras,
nos olhos araras,
talvez com guarda-horas,
cheiro do agora,
raiz redonda da asa,
certidão de nascimento inventada,
a palavra janela,
setembro, imenso, inteiro,
palavras compostas
astronauta-teu-beijo,
corda-bamba, 
três-queijos, 
batata-quente,
risos-berinjela.



Palavra velha,
tagarela,
desempre,
como era?
a palavra entrega, 
pisca-pisca  na
palavra retrovisor,
depois, atrás,
invertida,distorcida,
parede descascada,
palavra que não lembro mais.

Palavras que acordam,
fazem cócegas,
mais o quê?
riscam estrelas,
explodem planetas,
palavras calabouços,
palavras mas,
as adversativas, 
entretanto,porém,todavia,
toda a vida,
trancafiadas, 
identidade rasgada,
arranhadas,
aranhas que riscam voos, 
palavras bêbadas,
bem-humoradas 
palavra vrum, pum,
lugar-comum,
palavra palavra
com versinhos,
com versão, 
a palavra verão a secar,
a ventar sem rimas

Palavras de subversão, 
a lutar
váriasvozescoladasemuma

Ou  palavras sorvete de manga
[com pimenta]
palavras molhadas
a pingar tua risada
palavras para deitar em
dias-nuvens a ser mar, 
palavra neblinha,
palavrinhas, 
passarinhas,
palavra agora,
palavrupts, 
palacrash,
palavrazum,
corazon, sino, rosa,
palavra que beija o que toca,
palavra tãn, 
palavramar, 
intransitiva, 
palavras não ditas,
riscadas,
esquecidas,
engolidas,
esparadrapadas,
dopadas,
palavra livro
a desassossegar ,
livres a entrar
na palavra vida
entre porta e poesia,
carta, utopia, vírgulas,
saudade no chalé, 
café na pequena xícara
do "amar é..." 
a palavra tulipa
vestida para festa,
a palavra querer,
palavra para ser, 
palavra para incorporar, 
ah, palavrar a brincar!



[agora é sua vez!]





vendredi 16 octobre 2015

Não entre.

Você que mora no futuro
debruçado na janela
movediça da minha vida
do antes
do vício do cio de cicatriz por um fio,
não entre.

Você em branco, breu, nada, 
sem importância, passante na multidão da Cinelândia ou Presidente Vargas, vaga 
porvir 
num mapa de apenas [até hoje] uma grande e longa rua com um só nome
nome não teu,
não entre.

você preso no espaço do antes,
você que me olha, às vezes, da tela
movediça do tempo que sonha
[vela acesa]
e pisoteia o pouco silêncio do sótão,
Não entre.


você sem rosto entre tantos
você que talvez eu irei num dia
[ em tesão do ainda]
amar [verdadeiramente]
trocar livros e longos telefonemas
cheiros, vontades, cinemas
músicas e cartas mais bonitas 
medos e segredos da infância
[um urso que se chama Melvin]
cheiro de mel, beijo nos olhos,
mãos dadas, melhores amigos
um dia teu "namora comigo?",
não entre.

Você que um dia cansado do amor
acordou entre um enjoo e outro
depois de me apaixonar
a faca enfia [manso como um psicopata]
nas palavras
do antes,agora ontem
a incendiar
Mais um copo de vinho ou de chopp
entre noites que  você não veio
meu mas acordado
a escrever cartas de madrugada [rasgadas]
a enfeitar a porra da espera com argumentos fracos
a paixão no arpão do teu desleixo
você sempre ocupado, "depois eu falo",
de repente meu nome como uma palavra que pesa e confunde
riscado como se nunca existisse
você que mentiu, me iludiu, babaca egoísta
você não sabe o desfecho do hoje:
à noite, do  mais alto prédio de São Paulo,
no céu cinema, enceno Ofélia num rio
me atiro [louca e sem sentido] no teu risco.
Não entre.
Não entre.
Não entre.




mardi 6 octobre 2015

6 de outubro - livre arbítrio

A cura  encontra meus olhos
na maca de uma casa de luz
Lençóis brancos, alma sincera
A prece como uma rosa aberta
entre meus dedos expurga medos
[cautelosamente e sem ruídos]
Entregue às energias elevadas
vindas de mãos ao bem devotadas,
em gratidão, me entrego virtuoso à
busca de um coração mais generoso!
[Você vem?]



Rua sem saída

Na última casa do final da rua sem saída
[seria uma metáfora da minha vida?]
meu portão verde mais parece ironia

Da casa da frente, a roseira vermelha espia
um navio entra por engano na avenida
e ancora teu nome de frente para a utopia
[perto da minha janela]

A palavra ancorada pesa como um prédio
Balança a minha casa como num mar aberto
Estilhaça as vidraças com vista para o aperto

 A falta derrete na boca como uma mesa






Sala de espera

Uma criança  balança
pernas no alto da cadeira
purpurinas na trança

Na sessão da tarde,
uma personagem dublada
sem mexer a boca, rápido fala

A ansiedade sentada na minha cabeça
Toma meus dedos à força
e enrola sem parar meu cabelo
perto da raiz, do lado esquerdo.


Duas e meia da tarde sem livro ou sol
Dentro de um prédio comercial
Esperando a otorrinolaringologista
Na Rua República Árabe da Síria



[Uso interno - palavra otorrinolaringologista:
pronuncie devagar, assobiando as letras
uma vez à noite na direção do mar
entre a linha que reparte as dúvidas e as peras]





Trança



Tranço o desejo de selvagens fios
Domo seus cascos e relinchos grossos
contra minhas mãos machucadas

Divido o desejo em três: olhos, garras, seixos
puxo-os estreitamente rente aos vermelhos
estico cheiros entre  xícaras e medos

Os olhos trançados sobre os seixos em sexo
As garras trançadas entre seus grasnidos
Orgia de orgasmos trançados e contidos.

Na ponta da trança, a palavra "não" enlaça
teu nome como uma fivela de papel

Afundo a trança domada num aquário de pano retangular
Para quando encharcada, arisca e tonta
Possa colocá-la ao sol para da sede secar












lundi 5 octobre 2015

5 de outubro - anoitecer

Mesa da sala, roseira  e bilhete
Um avião entre Porte Alegre - Rio
Praia da Bica, debaixo d'água,
alguém lê um livro
sobre piratas, sereias e paixões
Aeroportos voam dos chãos
Lambuzo uma manga limpa
Adamastor se petrifica sem sua ninfa
O Tempo toma chá frio e sem açúcar comigo
[Chove fininho]
Uma garça enfeita o telhado do vizinho
Pelas ruas, vou de trança e vestido xadrez
Não lembro mais de você.



5 de outubro

À noite, andei quilômetros para
encontrar uma padaria acordada
com torta ou bolo de infância
(daqueles doces muito doces
que disputo com as formigas)
Comi só o recheio enquanto
a repórter dentro da 'tevê' dizia:
"Cientistas japoneses descobrem
cada pessoa é única por sua forma de andar"
Um gato passou na esquina vazia 

 Não lembrei do seu olhar.





lundi 28 septembre 2015

Outra vez

A festa acabou. Espio tuas frestas no salão fantasmagórico. Uma bola de plástico colorido balança ao vento e estoura, pá! Pulo de dentro de mim e caio espalhada pelo chão vazio da festa, entre guardanapos sujos e pedaços de ilusões. Fico um tempo olhando para o lustre caleidoscópio de brilhos prateados, faço de conta que o lustre é lua. Depois, tombo os pensamentos para teu silêncio. Por quê? Por quê? Por quê? A festa acabou. Chegamos tarde, amor. Eu, enfeitada de flor, perfumada de espera, com um salto sem equilíbrio, com o coração convidado para o beijo teu, fico olhando as luzes refletidas no lustre, holofote da minha dor. Um brilho cai feito faca sobre meus olhos, parece barulho de porta que se fecha. Outro brilho cai feito arpão sobre meu peito, "da última vez que morri...", era esse o poema?, penso e uma lágrima seca. Um vento mais forte cobre o salão de marfim, o vazio parece feito de elefantes enormes e pesados a atravessar meu corpo e pensamentos. Eles riem "Como você pôde acreditar outra vez?", diz o elefante pisando sobre tuas mãos em meus cabelos. Eu,seca e partida, respiro aflita entre os elefantes, deitada no salão de festas vazio. De repente, pá! Outra bola estoura, mais parece tiro! "Dessa vez, precisa ser fatal", pensei. Mas não era, teu nome ainda estava em minha pele, um pouco esmaecido. Havia entornado café, chá, vinho, mas teu nome na minha boca vermelha vermelha ainda. Não um  ainda de às vezes entre véus, mas um ainda de mais vezes entre céus. De repente, a música rompe no salão, penso em me levantar, mas antes os elefantes a dançar, a dançar, a dançar sobre meu corpo aberto.

samedi 26 septembre 2015

Relógio

De que nos serviria
um relógio?

Se deito em tua perna:
é dia.

Deito no silêncio:
é noite.

Se beija meus olhos e sorri:
é dia.

Se fechas os olhos para o mundo:
é noite.

Se faz cosquinha em meus segredos, secando todos ao sol:
é dia.

Se amarra as vontades aos pés dos medos:
é noite.

Quando encontramos um ipê amarelo ou um bolo de chocolate sem glúten:
é dia.

Quando não encontramos:
é noite.

Se te mordo igual passarinha ou sinto sua boca encostando na minha:
é dia.

Se a mordida de lobo é maior e mais doída:
 é noite.

Se invento um faz de conta com bolas de gás coloridas por dentro dos sonhos com conversas longas sobre o mundo, madrugada a dentro:
é dia.

Se você não sonha:
é noite.

Boina vermelha, tua barba, tuas mãos tocam meus seios:
dia.

café gelado, telefone sem bateria, teus olhos com raiva, tua faca sobre o peito:
noite.

Se pelo corpo acho teu beijo, tuas mãos, teu nome:
dia.

Se encontro teu rasgo:
noite.

Se abotoas meu casaco de velhinha em ruelas que levam à Cidade Nova:
dia.

Se o frio venta os sonhos:
noite.

Se enfeita a janela que se abre em minha barriga de borboletas azuis:
dia.

Se as borboletas secam:
noite.

Se entorna e bebe minha água sobre teus desejos:
dia.

Se encolhe as vontades em banalidades:
noite.

Se me acorda com beijo nos olhos:
dia.

Se teu silêncio pesa em minhas pálpebras:
noite.





Mãos dadas, hall do prédio verde, velhinha que conta histórias do seu tempo:
dia.

besouros que rondam, nossa história em branco:
noite.

Quando uma nuvem toca o som do teatro mágico e daquela banda antiga:
dia.

Quando a música é angustia:
noite.

Se ligas numa hora de pijamas e livros:
dia.

Se puxa o alarme da dúvida:
noite.

Se teus olhos anunciam infindos e mistérios por onde me perco:
dia.

Se me lançam ao precipício:
noite.

Se um vaga-lume que sonha em ser artista desenha um poema no céu movendo pequenas lâmpadas e estrelas:
dia.

Se as panteras nos rodeiam na escuridão:
noite.

Se um ipê amarelo guarda iluminado o nosso beijo:
dia.

Se uma infiltração abre entre nossos dedos:
noite.

Se você me espera na porta das palavras num sábado quente:
dia.

Se as heras cobrem a espera:
noite.

De que nos serviria
um relógio?






(Poema inspirado  no poema relógio, de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas)





mardi 8 septembre 2015

Limerência



Não consigo levar a vida leve
do protocolo social: boates, ficadas, encontros casuais...
Quero raízes, afunda minhas mãos na certeza das suas!
Quero histórias enfeitadas de palavras trocadas, cartas,
Olhar com montanha, balanço e vento por dentro?
 Por que me sinto assim molhada de sonhos?
brilhando de azul, azul, da rosa azul?
Fios espalhados entre dedos que ainda não existem.

Você ainda pode me ouvir?
Por que mudou a música?
Me balanço no balanço dentro dos teus olhos,
daqui, parece que ouço um trem,
 ele vem, vem, vem, cada vez mais forte
 passar por cima do meu corpo nu, entregue...
Eu sei, nada sobrará.

Caminho na ponte de dentro dos teus olhos,
 vendada,
 não sei quais os caminhos percorro,
 ouço tua voz com trechos de uma história de lobo,
a espera e seu cheiro de pipoca em dia chuvoso,
 algum botão meu fica mais forte,
 mas o desabrocho  com palavras retas,
quando minha alma gira secretamente em espiral,
repleta de pequenas borboletas azuis
com  palavras nas pontas das asas...
voo

lundi 24 août 2015

"a blue bird inside my heart"




"There is a blue bird inside my heart", uma tentativa de voo no final de agosto...



"there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?"

Charles Bukowski

lundi 17 août 2015

O Velho e o Mar

O Velho e o Mar

Porto:
Santiago acena.
No pequeno barco,
brilha meu maior sonho
enxugo os olhos com sal
e o brilho aumenta
Parto ao meu parto,
Na ausência de Manolin,
candidato-me!

Barco:
À noite, as estrelas no mar
desenham meu sonho entre
a linha, o anzol e a isca.
A Espera na proa do barco,
de cabelos bagunçados,
boceja calma e sopra outra
sombra na água, a expectativa.
A linha treme, o barco balança,
o Nada nada, outra vez.

Amanhece, os remos cortam
túnel de nuvens em esperança
a linha e o anzol dançam no azul
profundo como a fome do Velho,
Sardinhas cruas apenas nos restam,
mas ainda sem limão ou sal!
Na mão esquerda,  o Velho com a linha
 presa nos dois dedos, nenhum peso
E o vento sopra com suavidade.
A linha treme, o barco balança,
o Nada nada, outra vez.

Hoje à tarde, arrumamos os remos,
"não precisamos matar as estrelas, ainda bem!",
o Velho  disse e a noite agitou o barco,o esperado momento!
Na linha, um puxão se fez ligeiro, um esticão violento,
"Vamos!'- bradou  o Velho - "Coma a isca, meu peixe!",
E a linha correu pelos dedos, sangrando-os, sangrando-os.
O anzol treme,o azul dança, o barco balança,
"Meu Deus, o enorme peixe!", pela primeira vez,
tão grande, muito maior que o barco,
Do tamanho exato do sonho de Santiago!

Sangra o Sonho:
Um pássaro pousa na linha, treme um pouco e voa,
"A Sorte  foi ser Vento longe de nós!", o Velho entoa.
E o peixe nos arranca mar adentro, mar aberto, mar a ermo,
Mas a linha não se rompia, nem o peixe, a fome ou anzol.
O barco girou, assim, oitenta e quatro dias, forte e cansado,
até a coragem com seu arpão faminto rasgar do peixe, o coração! 
Boiava o corpo imenso de escamas cinzas, num rastro vermelho e azul.
 Junto ao barco,amarrei as cordas pelo corpo do peixe silencioso.
"Conseguimos, Santiago!", disse sem falar, ele olhava rumo ao mar.


Entre azuis, fomos seguindo, rumo à costa invisível.
 Logo no início, na trilha do sangue, já surgiram: tubarões!
Os primeiros, matamos a facadas e arpões,
Mas, à meia noite, o cansaço entornou pra dentro do barco,
"Santiago, não há mais facas! Não há mais arpões!",
entre o mar agitado, voltaram vários tubarões!
Olhos amarelados frios a devorar tão rápido a carne do Sonho,
numa bocada só, estilhaçada entre os dentes brancos,
"Do imenso Mar, só nos restou a espinha.", o Velho respira.


Cais:
Avisto o cais, o barco pousado, a sombra do Sonho descansa.
Na areia, afundamos ou andamos com as velas nas costas.
Manolin surge, chora ao olhar a espinha presa no barco.
"É inacreditável!", diz, "Esse é o maior peixe que já se viu!".
De volta à casa, eu e Santiago, entre jornais como almofadas,
adormecemos lado a lado, partidos e secos, sonhamos com leões.






 Escrita inspirada na experiência de leitura do livro O Velho e o Mar, de Hemingway!É, essa história me tocou...


Fotografia de 2012, mas esse texto pede  uma aquarela... quem sabe?





dimanche 9 août 2015

Para meu pai, com carinho!

Pai é uma palavra careca,
trabalha bastante e gosta de ganhar
meias pretas e cuecas!

Pai é uma palavra  comilona.
Sanduíche velho ou chocolate,
ele detona!

Pai é uma palavra companheira.
Na rua debaixo de casa ou
no deserto do Saara, ele me leva,
 mesmo que eu não queira!

Pai é uma palavra porto seguro.
Se os ventos improvisam noite
ou a alma abre furos,
ele nos protege do escuro!

Pai é uma palavra passarinho.
Na verdade, essas três letras
são um novo pio!

Pai é uma palavra ninho.
Abrigo trançado de pão  e amor,
com esforço diário, forte linho!
De onde lancei meu primeiro voo,
E ele, ao meu lado, sorriu!

Pai é palavra azulão
E eu, palavra amarela.
Juntos, somos um verde
feito balão ou estrela.
Juntos, pai e filha,
 somos  um ritmo que
faz cócegas  no umbigo,
um som invisível que
 guarda infinitos,
 toca aonde for,
é feito de luz
e se chama: Amor!



Feliz dia dos pais, pai!
Te amo!
De sua filha, Juju




"Nunca se esqueça da alegria dos seus olhos
e do seu coração." (Madre Teresa)


A louca dos giros

A louca dos giros

A Ilusão é uma andrógina rosa azul:
miraculosa, incólume aorta do eterno ainda 
de olhinhos opacos de vidro sem brilhos e míopes,
andar inquietante, em círculos, a girar no mesmo lugar da Espera,
no pátio dos afobados, todos os dias, de mãos suadas,
cigarro em fumaça a desenhar no ar um incompreensível tarot.
Ela, tantas vezes cigana, estava vestida elegante como se fosse a festa no hospício. E um sonhador diz:
- Olha, outra vez, a ilusão em giros, sem ficar tonta, sem envelhecer! - E corre para com ela se deitar.
A louca dá uma gargalhada alta, mas nada se mexe, então, risca um fósforo verde  e ateia  fogo em si! Ah, o súbito incêndio das vontades esquecidas ardem em seu corpo silenciado na fogueira ensandecida de Talvez.
E o sonhador se lança também no incêndio como se fosse Ícaro, mas sempre é tarde demais. Na cera derretida de suas asas, a mesma mensagem da "louca dos giros" repara:
-  Amanhã, meio-dia, no pátio dos afobados, como se fosse festa no hospício, novamente, estarei. Você vem?

(esboço, 2013)